Criolo vai lançar um disco velho. O que você acha de relançamentos?

O artista gastou tempo, dinheiro e atenção com um disco que não foi muito bem divulgado/acolhido e, por consequência, ficou esquecido, guardado no fundo do baú. Depois de algum tempo, este mesmo artista começa ganhar uma visibilidade ímpar por conta de novos trabalhos e uma nova fase se inicia para ele. A agenda de shows torna-se encorpada, fazer apresentações na Europa vira uma agradável rotina, uma legião de fãs o venera por onde passa e qualquer entrevista viraliza por conta de suas respostas proféticas. Agora aquele trabalho que pouca gente ouviu e, que deu um baita trabalho, foi tirado do baú e vai ganhar uma nova roupagem em breve para deleite do público.

Este roteiro citado acima aconteceu com o Kleber Cavalcante Gomes, mais conhecido como Criolo. Após anos de batalha no underground, o músico encontrou as pessoas certas no meio do caminho para fazer que o seu som ganhasse novos ares. Na semana passada, ele lançou um single chamado ‘Ainda Há Tempo’, presente em seu disco homônimo que será relançado em maio. Este trabalho completa uma década neste ano e o músico resolveu dar uma nova roupagem para o material que muito dos fãs não conhecem. Para isso, Criolo e Daniel Ganjaman, seu guru-produtor, decidiram cavucar os beats e adentraram no estúdio para recriar o mesmo disco. Hoje em dia as músicas de Criolo bebem em diversas fontes como rap, claro, e estilos como funk, samba, reggae, dub, afro beats e afins. Em uma faixa ou outra tem um resgate de alguma brasilidade, mas a espinha dorsal do trabalho é calcada no hip-hop, meio anos noventa. As letras já abordavam problemas sociais, o cotidiano cinza de uma grande capital. Não virou hype. Ainda havia tempo.

Bem, então, o Criolo tinha ingredientes que o fez bombar com ‘Nó na Orelha’ ou ‘Convoque Seu Buda’ muito antes. Por que diabos ele não bombou antes? O rap esteve rondando por mais de duas décadas, falando sobre periferia, discriminação com pretos e outros assuntos que não era de muito interesse da imprensa. Hoje o rap não fala apenas sobre mazelas e aborda diversos assuntos que o público e a mesma imprensa consegue enxergar. Sem contar que ficou mais fácil ter acesso ao Criolo em shows mais centralizados como num Cine Joia do que em alguma rinha ou apresentação no Grajaú, seu hábitat natural.

O resgate deste trabalho é importante para o Criolo, pois foi este álbum que ele fez no corre e demorou anos para finalizar, simplesmente sumiu de tudo quanto é lugar, nem no streaming você acha – poucos links no YouTube como este. A prensagem deste disco é item de colecionador e vale uma nota preta. Na época, investir pesado numa distribuição poderia ser um prejuízo pesado, por isso apenas 500 cópias foram feitas. Em meados de 2006, o músico sampleou artistas finos como Mos Def, Joe Dassin, Baby Consuelo, Maria Bethânia para embalar as suas cantigas em Ainda Há Tempo.

Criolo não foi o único que resolveu enfrentar os fantasmas de um disco antigo e dar um tratamento melhor para o trabalho. Um bom exemplo é Paul McCartney. O músico quis que o público tivesse outra oportunidade ao seu debute solo, lançado em abril de 1970. Na época, ‘McCarney’, foi ofuscado pela ira e o rancor dos fãs diante da separação dos Beatles e apenas tacaram pedra na tentativa do beatle fazer o seu próprio som.

Um exemplo tupiniquim é Edgard Scandurra, guitarrista do Ira! e participante de uma porrada de projetos musicais bacanas como o Pequeno Cidadão. Ainda na banda do Nasi, no final dos anos 80, ele lançou um disco solo chamado Amigos Invisíveis e virou item de luxo de qualquer coleção de rock brasileiro. Depois o disco voltou ao mercado por conta de sua gravadora, e até ele comprou.

Para alguns relançar o primeiro álbum soa como um golpe de marketing ou esgotamento de ideias para um novo trabalho, eu enxergo como um acerto necessário de contas com o passado. No caso do Criolo, ele batalhou para ser ouvido e conseguiu após anos de rinhas e fazendo correria para garantir um lugarzinho ao sol. A entrega que ele fez com o ‘Ainda Há Tempo’ não tem que ser trabalhada da forma como merece. Hoje ele consegue ter uma estrutura para realizar turnê em lugares bacanas, ter o disco em destaque em tudo quanto é canto e o mais importante para um artista: ver o público cantar a plenos pulmões.

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O jornalista paulistano, produtor musical e marketeiro Brunno Constante analisa, pondera, escreve e traz novidades sobre música no Papelpop todas as terças-feiras.

Fita Cassete é o alterego de Brunno quando ele fala sobre o assunto.

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Fonte: PapelPop.com.br