O ex-ministro foi preso por decisão do juiz Vallisney de Souza Oliveira, que criticou a decisão de outro magistrado de soltar o político sem monitoramento. Foto: Ed Alves/CB/D.A Press
O ex-ministro foi preso por decisão do juiz Vallisney de Souza Oliveira, que criticou a decisão de outro magistrado de soltar o político sem monitoramento. Foto: Ed Alves/CB/D.A Press

A prisão do ex-ministro Geddel Vieira Lima realizada ontem pela Polícia Federal (PF) em Salvador deixou o Palácio do Planalto em alerta. O temor dos auxiliares do presidente Michel Temer é que o ex-titular da secretaria de Governo faça uma delação premiada que comprometa o chefe do Executivo. Na avaliação de investigadores, parte da propina recebida por Geddel enquanto era vice-presidente da Caixa Econômica Federal financiou campanhas de peemedebistas ou foi dividida entre os caciques do partido.

 

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A prisão ocorreu no mesmo dia em que Temer gravou uma mensagem para exaltar os dados econômicos positivos e reforçar o compromisso com as reformas, essenciais para reequilibrar as contas públicas e para que o país volte a crescer. Mas há quem duvide que exista tranquilidade na cúpula do governo. “Se engana quem acha que o clima está bom no Planalto. Todos estão preocupados porque sabem que Geddel é explosivo, tem um temperamento forte e pode reagir muito mal ao cárcere”, disse um parlamentar do PMDB.

O político baiano foi preso por ocultação de recursos e lavagem de dinheiro. A medida é resultado da Operação Tesouro Perdido, em que se encontraram R$ 42 milhões e mais US$ 2,6 milhões em um imóvel supostamente usado para guardar bens do pai dele, morto em 2016.  É um desdobramento das investigações da Operação Cui Bono, na quarta fase, que investiga cobrança de propina para liberação de empréstimos da Caixa. No despacho que autorizou a ação da Polícia Federal (PF), o juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal (DF), afirmou que o ex-vice-presidente do banco público persiste na prática de delitos de forma “sorrateira”.

Casa da mãe

Além disso, o magistrado autorizou buscas e apreensão de documentos na casa da mãe de Geddel, que fica no mesmo prédio em que o político mora. Os investigadores temiam que provas fossem destruídas ou escondidas na residência da viúva, dada a proximidade. O peemebebista estava em prisão domiciliar, sem tornozeleira eletrônica, por decisão do desembargador Ney Belo, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, desde o dia 13 de julho. Ele havia sido preso 10 dias antes sob suspeita de pressionar o doleiro Lúcio Funaro a desistir de firmar acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal (MPF).

Oliveira classificou a decisão do outro magistrado como “completamente ineficaz”, por não permitir o monitoramento do investigado. Ele além disso registrou que a falta de eficiência da medida fica clara diante da “dinheirama” encontrada perto da casa de Geddel. O apartamento fica a 1,2km da residência do político baiano, no bairro da Graça, um dos mais nobres de Salvador. Aplicativos de georreferenciamento apontam que o trajeto poderia ser feito em apenas 16 minutos de caminhada.

O juiz federal destacou na decisão que, quando ouvido pela PF e por ele, Geddel não revelou que tinha esses recursos guardados, o que reitera o crime de lavagem de dinheiro. “Mesmo na remota hipótese de que os vultosos valores encontrados não sejam produto direto dos crimes ocorridos na Caixa Econômica Federal, o certo é que ele estava em prisão domiciliar e tais fatos repercutem desfavoravelmente na situação do requerido, por incorrer em reiterada prática criminosa que dá ensejo à prisão preventiva para asseguramento da ordem pública, inclusive diante das provas que o apontam como dono ou possuidor dos valores”, destacou.

Fragmentos das impressões digitais de Geddel foram encontrados em duas sacolas plásticas diferentes. A PF e os procuradores que conduzem as investigações afirmaram que existem “fortes indícios” de que o dinheiro encontrado em um apartamento em Salvador seja do cacique peemedebista. Os investigadores apontam além disso a ligação do imóvel onde foram encontradas as malas de dinheiro com o irmão dele, o deputado federal Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA).

Durante a operação a polícia encontrou uma fatura em nome de Marinalva Teixeira de Jesus, apontada pelos procuradores como empregada doméstica de Lúcio. Além disso, o proprietário do apartamento, Silvio Antônio Cabral da Silveira, confirmou que emprestou o imóvel ao deputado federal. de acordo com o pedido de prisão enviado do MPF para a 10ª Vara Federal do DF, Silveira esmiuçou que emprestou o apartamento para Lúcio Vieira Lima “em nome da amizade que possuía com ele, embora não conhecesse Geddel”. O empréstimo do apartamento foi confirmado em depoimento da administradora do condomínio.

Na Operação Cui Bono, Geddel e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) são investigados por supostamente cobrar propinas de empresas, entre elas empresas dos irmãos Batista, para a liberação de empréstimos bilionários da Caixa Econômica Federal no período em que o peemedebista foi vice-presidente de Pessoa Jurídica do banco, entre 2011 e 2013, no governo Dilma Rousseff.

Em delação, o doleiro Lúcio Funaro alega ter repassado R$ 20 milhões em dinheiro vivo ao peemedebista. A versão dele é corroborada pelo empresário Joesley Batista, da JBS.

Geddel foi transferido ontem em avião da PF para Brasília, aonde chegou às 15h. Além disso, as malas com o dinheiro e outras provas recolhidas foram levadas para investigação. O político foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) para perícia e em seguida seria transferido para a Papuda.

A audiência de custódia com o juiz Vallisney Oliveira além disso não foi marcada e, por isso, havia a chance de que o político baiano permanecesse na sede da PF. O advogado de Geddel e de Lúcio, Gamil Föppel, informou que se manifestará quando tiver acesso aos autos do processo, especialmente aos documentos que são mencionados no decreto de prisão. de acordo com ele, as prerrogativas de advogado e do direito de defesa são reiteradamente desrespeitados, diante do impedimento do acesso às provas já documentadas nos autos processuais.



Fonte: Diário de Pernambuco

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