diretor que causou saída de Tite do Palmeiras com “cala boca” revela arrependimento e torcida pelo hexa


Cercado e xingado por torcedores no aeroporto depois de ter sido mandado “calar a boca”, publicamente, pelo diretor de futebol do clube em que trabalhava. Soa incrível, mas o parágrafo acima se refere ao técnico Tite, da seleção brasileira.

Essa foi, aliás, a última vez que Tite deixou um trabalho de forma conturbada, doze anos atrás. Por coincidência – ou talvez não, dado seu futuro tão atrelado ao Corinthians – o episódio aconteceu no Palmeiras, em 2006.

“A palavra pronunciada não tem mais volta, eu sei. Mas eu me arrependo de ter dito isso. Foi no calor pós-jogo, fui pego de surpresa por um repórter de rádio de quem era amigo. Não queria atingi-lo (a Tite) assim”, disse à ESPN Salvador Hugo Palaia, diretor de futebol do Palmeiras na época.

Praticamente uma unanimidade atualmente, o técnico da seleção brasileira vivia uma situação bem diferente, mais ou menos nesta mesma época do ano, três copas atrás.

Enquanto Parreira e Zagallo tentavam o hexa na Alemanha, Tite quebrava a cabeça no Brasil para salvar o Palmeiras do rebaixamento no Brasileiro de 2006. A pausa para a Copa, inclusive, foi fundamental para ele encontrar uma maneira de o time jogar.

Foi durante esse período que o treinador implantou no grupo seu método de trabalho, em uma intertemporada em Atibaia.

“Tite rapidamente conseguiu mudar muita coisa no time. Foi uma pena o trabalho ter se encerrado, ainda mais desse modo”, relembra-se o ex-lateral Paulo Baier, que estava naquele elenco do Palmeiras.

Na volta da competição, após a Copa vencida pela Itália em solo alemão, o Palmeiras de Tite parecia que ia decolar, com uma sequência de onze jogos invictos. Mas o tempo passou. E, em setembro, duas derrotas consecutivas trouxeram questionamentos ao trabalho do técnico: um 0 a 1 ante o Cruzeiro e um 2 a 3, no Arruda, contra o Santa Cruz, que marcou a despedida do técnico.

QUEBRA DE CONFIANÇA

Ainda no calor do jogo em Recife, Tite esbravejou contra a arbitragem de Alício Pena Filho, que assinalara muitas faltas e um pênalti contra o Palmeiras. Os três gols do Santa Cruz vieram em bolas paradas.

Enquanto Tite esbravejava na entrevista coletiva, Salvador Hugo Palaia dava entrevistas a alguns veículos do lado de fora. E, durante uma dessas entrevistas, proferiu a frase que selaria o destino do técnico no Alviverde.

“O Tite tem que calar a boca e parar de reclamar dos juízes. Mesmo que eles (árbitros) tenham errado, temos que jogar bola. Nosso futebol foi medíocre”, disse Palaia, na época.

“Eu até tentei explicar depois que o correto era ‘fechar a boca’, mas eu já tinha falado e a primeira versão foi a que ficou”, lamenta-se o membro vitalício do Conselho Deliberativo do Palmeiras e aliado do presidente Maurício Galiotte e de Leila Pereira, sua colega no conselho e dona da Crefisa, patrocinadora do clube.

Tite se demitiria do clube dois dias depois, alegando quebra de confiança, às vésperas de um clássico com o São Paulo – vitória alviverde por 3 a 1, sob comando do interino Marcelo Villar, em Presidente Prudente.

TORCIDA PELO HEXA

Palaia diz que não ficou nenhuma rusga entre Tite e ele.

“Eu, há pouco tempo, ainda trocava mensagens por celular com ele, mas faz um tempo que não falo”, conta o dirigente, que também é empresário do ramo imobiliário.

“Eu torço por ele, sim. Acho que ele montou um grupo muito bom na seleção e espero muito que ele conquiste o hexa”, afirma o dirigente.

Sobre o passado, a despeito do arrependimento, Palaia ainda faz algumas ressalvas ao comportamento de Tite na época em que trabalharam juntos.

“Naquela época, ele era muito impulsivo, queixava-se demais, era instável emocionalmente. Eu me arrependi, mas acho que ele também deve ter se arrependido de ser um pouco daquele jeito. Tanto é que mudou”, crê Palaia.

Com Tite no comando, em 20 jogos, a equipe contabilizou oito vitórias, cinco empates e sete derrotas, com aproveitamento de 48% dos pontos.

O MELHOR

Um dos jogadores mais experientes daquele elenco, que tinha, entre outros, Edmundo, Juninho Paulista, Valdivia e o centroavante Roger, atualmente no Corinthians, Paulo Baier lembra-se de que o elenco lamentou a saída do técnico.

“A gente se dava bem com ele. Mas a pressão era muito grande, com torcedor esperando no aeroporto. Não tinha muito mais o que fazer”, lembra-se Baier.

Mesmo tendo trabalhado pouco mais de três meses com ele, o jogador, que passou por 17 clubes em 21 anos de carreira, diz que Tite foi o melhor técnico que o comandou.

“Não tenho dúvidas de que foi o melhor, sempre ressaltei isso”, diz Baier, que atualmente inicia sua carreira como treinador – treinou o Toledo, do Paraná, durante o Estadual deste ano. Terminou na 9ª posição, entre doze participantes. “Ele me incentivou a trabalhar como treinador”, conta. “Sonho em fazer um estágio com ele”, conta.

“O que Tite tem de melhor é a parte de gestão de pessoas, de motivação. Ele não mexe só com os 11 em campo. Todos se sentem importantes, ele faz questão disso”, explica Baier. “Desde aquela época, ele já fazia rodízio de capitães e as palestra dele antes dos jogos eram muito emocionais. Aquilo mexe mesmo com a gente”, afirma.

Sobre a campanha do Palmeiras em 2006, que conseguiu se manter na Série A, com o técnico Jair Picerni, Paulo Baier se lembra com confessado alívio.

“Não caímos e isso foi o mais importante. Mas, com tanta confusão, não termos sido rebaixados foi sorte”, diz.

Salvador Hugo Palaia faz coro ao jogador.

“Se aquela confusão toda não tivesse acontecido, o Palmeiras poderia ter terminado o ano de maneira mais tranquila”, diz ele. “É por isso que tenho certeza de que ele vai reencontrar o caminho certo para a seleção. Ele é muito capaz”, acredita.

Se alguém que já o mandou calar a boca pensa assim, talvez o torcedor brasileiro tenha motivos para ficar tranquilo.

Fonte: ESPN