Ex-diretor de Faustão vetou Ricky Martin na Globo por causa de Gugu


Devido à concorrência com Gugu Liberato, que apostava no filão do jornalismo com entretenimento na guerra de audiência entre Globo e SBT nas tardes de domingo em 1998, o jornalista Alberto Luchetti assumiu a direção do “Domingão do Faustão” para implantar um novo formato no programa.

“Eu fui contratado pela Globo por causa do Mamonas Assassinas, que o Gugu colocou repórter de entretenimento na rua quando caiu o avião. A Globo, como todo domingo, dorme. Eles estão com um programa enlatado que é o ‘Fantástico’ e não deixam ninguém fazer absolutamente nada. Mas eles esqueciam que o Gugu podia furar, e foi o que aconteceu. Teve essa mudança de entendimento e eles me chamaram pra fazer o jornalismo de domingo”,conta o ex-diretor do “Domingão” em conversa exclusiva com o NaTelinha.

Por quatro anos, a atração do Fausto Silva ficou sob sua responsabilidade, e nesse período, buscando sair do previsível, revelou inúmeros talentos do cenário artístico, dentre eles, Padre Marcelo Rossi, Bruno e Marrone e Frank Aguiar. Isso aconteceu por causa do “Domingo Legal”. Luchetti vetou no “Domingão” os melhores chamarizes de audiência entre as décadas de 90 e 2000: as duplas sertanejas.

“Eu precisava sair fora desses caras, se não viraria escravos deles, iam num domingo lá e outro no Fausto. Foi aí que fui descobrir novos talentos”, explica Luchetti, que antes de ser convocado pela Globo, exercia a função de diretor de jornalismo da Band e teve passagens por Folha de S.Paulo, Estadão e Jovem Pan.


Numa época onde a briga pela audiência era mais acirrada entre SBT e Globo, Alberto chegou a vetar a divulgação do novo CD de Ricky Martin, porque o cantor internacional iria se apresentar também no programa de Gugu Liberato, 40 dias depois de aparecer no canal carioca.

A consequência da proibição foi que Ricky Martin se apresentou com exclusividade no “Domingo Legal” e Luchetti transformou o apresentador Clodovil Hernardes numa arma na disputa com o astro latino.

“Metemos 40 contra 10. O sucesso foi tão grande que eu comprei um CD do Ricky Martin e mandei um café da manhã para o Clodovil dizendo: ‘Clodovil, como você apagou o lançamento do CD do Ricky Martin e ninguém vai saber que ele lançou um disco no Brasil, estou mandando pra você'”, recorda o jornalista, que saiu da atração por divergências com Faustão.

Para Alberto Luchetti, atualmente os programas de domingo na TV apostam na mesmice da choradeira e do sensacionalismo barato, e pra sair disso, deveriam recorrer à descoberta de novos talentos.

“Os telespectadores assistem ao programa pelo que ele oferece de lúdico e de entretenimento. O investimento em atrações pouco previsíveis pode identificar um novo fenômeno fora da mídia. Isso deve ser feito à exaustão. É o triunfo do anonimato”, opina Luchetti, que hoje dedica-se a All TV, a primeira televisão de internet idealizado por ele.

Atualmente, segundo o diretor, Márcio Garcia representa o novo na televisão – recentemente, ele encerrou mais uma temporada do “Tamanho Família” na Globo.

Me sentia muito pressionado. Na minha época a concorrência era mais forte entre Globo e SBT

Alberto Luchetti

O jornalista sempre teve um feeling na descoberta de novos nomes dentro do cenário artístico. Além de cantores, durante os quatro anos em que ficou no “Domingão”, deu a primeira oportunidade para Monalisa Perrone, Pedro Bassan, André Plihal, Daniela Freitas, Amanda Klein, Rafinha Bastos, dentre outros 91 profissionais, que já trabalharam com ele na All TV e hoje se destacam em seus meios de atuação.

“Eu descobri o Otaviano Costa. Ele trabalhava comigo na produção do Faustão. Como ele era engraçado eu pedia pra ele aquecer as caravanas do programa antes de começar. Na época, o Luciano Huck estava indo para a Globo e eu indiquei o Otaviano para o Saad na Band”, recorda.

Confira abaixo algumas das histórias de bastidores relembradas por Alberto Luchetti no período em que ele foi diretor do “Domingão do Faustão”, entre 1998 e 2002.

Ricky Martin

A Sony Music me deu o Rick Martin exclusivo para lançar o CD dele. Ele era o maior fenômeno latin pop da época. Achei ótimo, era uma música que ninguém conhecia. Eu topei fazer. Passou uns dias e a gravadora virou pra mim e disse que queria dar ele exclusivo pra a Globo toda. Eu falei: “bom, isso não é comigo, eu sou só o Faustão. Eu vou levar vocês para quem é de direito”. Ai eu levei para a Marluce (Dias da Silva), que era a diretora geral.

A Marluce encaminhou para o departamento de contratos e fizeram um contrato de exclusividade do Ricky Martin na Globo. Ele iria lançar o disco no Faustão, depois iria passar em todos os programas da linha de shows e teria música lançada na novela. Era uma divulgação monstra, um escândalo.

Fizeram o contrato e a Marluce mandou entregar o documento para mim para eu dar uma lida. Eu li o contrato e no final tinha assim: “depois de 40 dias ele vai ter uma participação no programa do Gugu”. Eu liguei para o departamento de contrato e disse: “O que é isso aqui? Nós vamos ficar divulgando a música que nem uns loucos e quando o Ricky Martin for daqui a 40 dias no programa do Gugu, ele vai a 70 pontos e a gente vai dar 10”.

E eles responderam: “mas é assim, porque o Gugu é muito amigo dele”. Eu falei: “então é o seguinte, no programa do Fausto ele não canta”.

Olha, arrumei uma guerra com a Globo inteira. Já tinham escolhido a música para a novela das oito. Sabe qual era? Livin’ la Vida Loca E chegando em casa, eu pensei: “e agora?”. Se perdesse a audiência, os caras (Globo) iriam me matar.

Nisso, fui procurar um cara que queria voltar para a televisão e ninguém deixava. Expliquei que iria trazer ele de volta e seria na Globo, só pedi para ele fazer o que eu pedisse: “eu vou botar três repórteres na rua para o povo fazer perguntas pra você”. Ele disse: “a pergunta que fizerem eu respondo. Não tenho nem como te agradecer”. Eu falei: “você me agradece fazendo o que eu estou falando. E outro detalhe, na hora que o Ricky Martin entrar de helicóptero no Gugu, o Fausto vai ter chamar”.

No dia, assim foi feito. Quando o Gugu começou a mostrar o rosto do Ricky Martin no avião, nas escadas descendo, o Fausto anuncia: “de volta para a televisão, Clodovil Hernandes”. Metemos 40 contra 10. O sucesso foi tão grande que eu comprei um CD do Ricky Martin e mandei um café da manhã para o Clodovil dizendo: “Clodovil, como você apagou o lançamento do CD do Ricky Martin e ninguém vai saber que ele lançou um disco no Brasil, estou mandando pra você.

Pressão de audiência

Me sentia muito pressionado. O seu resultado de audiência nada mais é do que o resultado financeiro do programa. Um exemplo disso foi quando o Gugu passou a superar o Fausto, eu já não estava lá, e grandes anunciantes foram para o SBT.

Na minha época era mais grave, era uma concorrência de audiência mais forte entre a Globo e o SBT. Então, você ficava com uma atração que no espelho do programa você imagina 10 minutos, ficava 40, outros que você imagina 10 minutos, fica um ou dois.

Veto a sertanejos por um ano e meio no Faustão

Então, em 1999, eu proibi por um ano e meio a entrada de todos os sertanejos no programa. Você sabe o que era fazer isso na época? Todo domingo era Leandro e Leonardo, Daniel e Zezé di Camargo e Luciano. Eu precisava sair fora desses caras, se não viraria escravos deles, iam num domingo no Domingo Legal e outro no Fausto.

Nesse mesmo período, fiz uma reunião com todas as gravadoras e disse o seguinte: “para não mostrar que sou autoritário, vocês pegam o cast de vocês e levam para o Gugu e ele escolhe o que quer. O que não quiser vocês podem vir pra mim que eu coloco no programa do Fausto”. Sabe o que o Gugu escolheu? Tudo. Foi aí que fui descobrir novos talentos.

Quem é que se descobriu na minha época: Frank Aguiar, Padre Marcelo, Pepê e Neném, Bruno e Marrone, Vanessa Jackson, Shaolin, As Meninas, Sandro e Gustavo, Fat Famly e outros.

Frank Aguiar

Eu pedi para um repórter ver o que acontecia na periferia de São Paulo e ele me falou: “tem um cara que faz 10 shows por semana e coloca 10 mil e 20 mil pessoas onde canta”. Eu falei: “Vamos levar ele no programa”.

Quando o Frank Aguiar entra na minha sala, eu pensei que iria ser demitido. Era um “cenourão” e um rabo de cavalo, dantesco. Combinei com ele de levar ao programa e cantar uma única música: Lavou, enxugou, tá nova”. Ele não sabia nem o que era televisão e nem tinha gravadora, mandava fazer os discos dele.

Quando conversei com o Frank, falei que eu iria emitir uma passagem pra levá-lo ao Projac (Estúdios Globo), ele respondeu: “não precisa, tenho um jatinho particular”. No dia da apresentação, apareceu no meu produtor com uma Mercedes 500. O que era o Frank Aguiar? Era um fenômeno na periferia mas não era um fenômeno na mídia.

Eu levei ele no programa. Nos corredores da Globo os caras davam risadas com a figura dele, porque ele era uma figura esquisita. Quando ele entrou no palco do Faustão, o programa tava dando 30 pontos de audiência, contra 29 do Gugu. Ele começou a cantar e foi para 35 no Ibope. Mando cantar a segunda, aumenta ainda mais a audiência, canta a terceira… a quarta, explodiu no Ibope.

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Quando acabou o programa, a Abril Music me ligou perguntando se ele tinha gravadora. Frank Aguiar assinou com eles e vendeu mais de um milhão de cópias. Explodiu nacionalmente. Fizemos seis programas seguidos com ele.

Sucesso do Carnaval

Nós fizemos o concurso da loira e da morena do “É o Tchan”, isso era um contrato que a Globo tinha. O empresário deles chegou um dia pra mim e falou assim: “queria que você lançasse um grupo”. Eu vi o grupo e disse que não iria lançar porque era muito ruim. O empresário insistiu tanto que combinei de gravar e inserir num programa gravado do Fausto em janeiro. Foi o maior fenômeno do Carnaval: “As Meninas” cantando “Ximbom, Bombom”. Foi por acaso, fui fazer um favor ao empresário.

Padre pop star

Em 1998, eu fui fazer uma reportagem para descobrir quem vendia livro na bienal. E o maior vendedor na época era um padre. Fomos atrás e descobrimos que ele era um ex-professor de educação física que se transformou em padre porque o primo dele, que era muito ligado, morreu de acidente de carro. Quem era: Padre Marcelo Rossi.

A mídia não conhecia, o Brasil não conhecia, mas era ele famoso entre os católicos da região sul de São Paulo.


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Fonte: Na Telinha / UOL