A Croácia deve garantir que o coração partido na Copa leve a um futuro de sucesso


Luka Modric recebeu seu prêmio de melhor da Copa do Mundo, aceitou os parabéns de Gianni Infantino e Vladimir Putin, e seguiu recebendo as saudações de personalidades importantes presentes no pódio.

O próximo na fila era o presidente francês, Emmanuel Macron e, então, vestida com uma camiseta vermelha e branca da Croácia, estava alguém que não aguentava mais esperar para vê-lo. Era a presidente do país, Kolinda Grabar-Kitarovic.

Se o jogador estava guardando suas emoções para si, a política estava tão feliz que não conseguia se conter. Deu um abraço apertado em Modric, este agora símbolo de uma jovem nação, enquanto lutava visivelmente para conter as lágrimas.

Comportamentos burocráticos são deixados para trás em momentos como este, é momento para abraços. Cerca de 15 minutos antes, enquanto os atletas admiravam a enorme muralha vermelho e branco de torcedores atrás do gol, Evran Lovren abraçava um a um seus companheiros. Foi Ivan Rakitic, seu parceiro dos últimos oito anos, quem ganhou o cumprimento mais longo. Dois jogadores já em idade avançada, e que experienciaram uma epifania esportiva.

O que esses quatro personagens, perdidos em um momento que ninguém poderia prever, poderiam estar pensando?

Para Grabar-Kitarovic foi, provavelmente, um borbulhar de intenso orgulho por um país de 27 anos em sua jornada rumo ao topo. Para Modric deve ter sido uma efervescente frustração de um vencedor que chegou muito perto de escrever o seu nome e de seu país na história do futebol, mas que pode nunca mais ter outra chance de fazê-lo. Talvez Lovren e Rakitic, observando as arquibancadas, estivessem também imaginando se suas carreiras ainda guardariam algo semelhante para o futuro.

Eles deram tudo, secaram até a última gota de seus corpos e mentes enquanto enfrentavam francamente a França até o final de uma partida que eles até tiveram domínio, mas que perderam por pouco.

“Estou sentindo uma emoção enorme”, disse o presidente da Federação Croata, Davor Suker, ao ESPN FC, após parabenizar seus jogadores nos vestiários, enquanto o revés começava a esfriar em suas peles.

“Olhando o placar, eu acho que foi justo. Você precisa parabenizar os franceses e seu técnico; eu acho que o melhor time venceu hoje”, declarou.

É o reflexo da reação imediata que tiveram os croatas ao se deparar com a frustrante decisão do VAR ao marcar o pênalti quando o placar estava 1 a 1.

“Você precisa respeitar o VAR e nós tivemos azar, isso é o que posso dizer”, comentou Suker, sem querer levantar polêmica ou deixar o torneio com um gosto amargo.

“Você precisa ter dignidade na derrota e respeitar o placar: essa é a mensagem para meus jogadores”, disse Dalic na coletiva após a partida.

Na final da Copa, essa é a melhor maneira de ser: todos sabem o que mudou o jogo e o próprio técnico disse que o pênalti para a França não é algo a ser marcado em uma final, mas que ao mesmo tempo não é o momento de dizer coisas negativas.

Ao invés disso, para a Croácia é hora de seguir em frente e entender como essa experiência pode ser usada de forma positiva. Assistir Modric e Rakitic comandando o meio-campo na final da Copa do Mundo, junto de Ivan Perisic, que trouxe uma energia surreal para a Rússia: como se fosse uma cristianização de tudo que já conhecemos desses craques. Uma afirmação de que o futebol puro e a habilidade podem, eventualmente, alcançar os estágios merecidos.

Mas isso também foi tratado com um tom de urgência: se esse é o ápice de uma geração maravilhosa, o que vem após isso?

Dalic, técnico que trabalhou por nove meses com o elenco vice-campeão mundial, foi merecidamente aplaudido em sua entrevista coletiva pós-jogo. Ele incentiva uma infraestrutura melhor no futebol croata.

“Agora os políticos terão tempo para decidirem quando teremos nosso estádio da seleção nacional”, disse Suker, presidente da Federação Croata de Futebol. “Eu serei o presidente mais feliz do mundo se tivermos ajuda com a infraestrutura e construção. Não é fácil, queremos construir um centro de treinamento, mas se não temos permissão, não podemos construir”.

Possivelmente essa questão deve passar pela presidente Grabar-Kitarovic e seus colegas. A Croácia iria, com certeza, se ajudar com um investimento desses e uma boa estrutura de suporte. Se existe um tempo para planejar isso, é agora, o auge que o país já alcançou no futebol.

O elenco atual tem jogadores que estarão prontos para liderar em 2022 – Ante Rebic, o ponta de 24 anos teve um bom mundial – mas certamente existe um espaço de geração após o jogo vintage de Modric, e o desafio é ter certeza que a Croácia vai competir no mesmo nível nas próximas Copas do Mundo, ao invés de ser uma memória aconchegante e calorosa de 2018 duas décadas daqui.

Então, novamente, às vezes só precisamos apreciar o momento.

“É a Copa do Mundo! Por que estamos aqui? Por que estamos lutando?”, perguntou Suker retoricamente. “É pelo país, pela bandeira, pelas camisas!”

Rakitic falou antes da final sobre ter 4,5 milhões de jogadores em campo, alinhado com a população do país. E foi assim como eles jogaram também, não deixando nada para trás, jogando para frente mesmo perdendo por 4 a 1 e conquistando uma esperança no vacilo de Hugo Lloris contra Mario Mandzukic.

Conforme o relógio corria abaixo nos 90 minutos, os milhares de torcedores viajantes agora aceitavam a realidade da derrota, culminando em uma longa e desafiante canção. Ninguém, naquele momento, iria dar a mínima consideração para campos de treino e academias de base.

“Nós estamos um pouco tristes, mas temos que estar orgulhosos também”, disse Dalic.

Qualquer que seja o desfecho, Grabar-Kitarovic, Modric, Lovren, Rakitic e todo croata no estádio se sentiria da mesma forma. Esta foi uma noite para manter as cabeças erguidas; quando as notícias do dia amanhecerem, a tarefa será garantir que esses sentimentos nos deram uma esperança duradoura.

Fonte: ESPN

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