Copa do Mundo emocionante ganha final à altura, e a França acaba com o sonho da Croácia


Não houve milagre no Estádio Luzhniki neste domingo. Sem subversão da ordem antiga. Em vez disso, o maior e mais talentoso elenco despachou os desafiantes, que vieram para essa partida com 24 horas de sono a menos e tendo estado 90 minutos a mais no campo.

Após um mês de futebol emocionante, o torneio teve a final que merecia, com a França corada campeã do mundo pela segunda vez, 20 anos depois do triunfo em cima dos brasileiros liderados por Zagallo em 1998.

Nós vimos a final com mais gols desde 1958, quando um menino de 17 anos marcou na vitória do Brasil pra cima da Suécia. Neste domingo, esse menino de 17 anos foi emulado em um de 19, que atende pelo nome de Kylian Mbappé.

Apesar da derrota por 4 a 2, a Croácia – o segundo menor país a chegar em uma final de Copa do Mundo – provou ser uma seleção brigadora e merecedora do posto de 2ª colocada. Você até pode discutir se a França jogou seu melhor futebol nesta Copa do Mundo (provavelmente não), mas não dá para discutir que eles não têm calibre para vencer um título de Copa do Mundo.

E se a França tem o melhor e mais talentoso elenco de todo o mundo, eles estão no top-3 com certeza. A França conseguiu do jeito que eles fizeram sempre: com cautela, sempre dando a impressão de que eles poderiam subir o nível um pouco, caso fosse necessário, mas nunca acabou sendo.

Esse som de motor forte que você ouve? É Didier Deschamps, o técnico da França, em sua locomotiva, deixando todo o mundo para trás.

“A França é uma bela campeã?” Deschamps disse depois. “Eu não sei. Sei só que nós somos os campeões do mundo e vamos ser pelos próximos quatro anos”.

Pelo caminho, eles tiveram algumas pausas. A falta que originou o primeiro gol da partida – a cabeçada de Mario Mandzukic contra sua própria meta – não deveria ter sido marcada, mas não existe VAR em faltas, e o árbitro Nestor Pitana, apesar de seu bíceps de caricatura, é humano. Mas o VAR apareceu na partida, sim. Foi dele que saiu o pênalti convertido por Antoine Griezmann.

“Toda a sorte que tivemos nas fases anteriores, não tivemos na final”, disse o técnico croata Zlatko Dalic

“Eu não acho que você pode marcar um pênalti desses numa final de Copa do Mundo, mas isso não diminui a vitória da França”.

Deschamps montou um grupo de jovens talentosos e inexperientes – entre eles Mbappé, Griezmann e Pogba – em um time “honesto”, que faz o necessário para vencer, sem muito brilho, mas cirúrgico. Um time que sabe sofrer.

Neste dia, a Croácia, apesar de ter ultrapassado todas as barreiras do cansaço e da desconfiança para disputar a final, fez a França sofrer. Estava evidente desde o começo. A Croácia fazia pressão alta, como se a fadiga fosse mera ilusão. Quando percebeu, Deschamps precisou formar seu trio de volantes formado por Pogba, Kanté e Matuidi. Era necessário. O gol contra de Mandzukic não abalou os croatas, nem empolgou os franceses.

Foi um presente dos deuses da casualidade, mas tudo que isso fez foi dar a Deschamps o que ele queria. A oportunidade de contra atacar, quase que dizendo no pé dos ouvidos dos croatas que eles não tinham mais nada a perder.

Domagoj Vida perdeu uma cabeçada relativamente fácil. Kanté, pego com as calças curtas, precisou dar um “rapa” em Ivan Perisic e recebeu o cartão amarelo. Deschamps, enterrado no fundo de seu abrigo, ficou cinza. E aí foi de mal a pior. Quando o relógio apontou 30 minutos, a cobrança de falta de Luka Modric encontrou a cabeça de Sime Vrsajlko, e a bola viajou por toda a área. A Croácia, então, venceu dois lances aéreos com a bola pendurada na área. Mandzukic bateu Pogba e Lovren superou Matuidi. A bola sobrou para Perisic, que guardou.

Ele dominou com a perna direita e fuzilou com a canhota, canalizando a sua raiva, a de Mandzukic e a dos quatro milhões de croatas no mundo. A penalidade endireitou o galeão francês, mas os croatas ficarão com aquele gosto amargo em suas bocas.

E com razão. A bola, de fato, bateu na mão de Perisic, foi um clássico “bola na mão”. Se o VAR deveria ter interferido ou não, é algo a se debater. No fim, o árbitro argentino chamou a responsabilidade, que é o que esperamos dele. Se foi a marcação errada, culpa dele. Se foi a errada… Após uma defesa brilhante de Hugo Lloris em finalização forte de Rebic, Deschamps precisava se mexer. Ele colocou Steven Nzonzi e tirou o amarelado Kanté.

Simples assim, Deschamps ganhou 22 centímetros para defender as bolas aéreas croatas, que começavam a assustar. Nzonzi oferecia mais um corpo para defender, mais volume no meio-campo e aquela “falta profissional” a ser marcada, caso fosse necessário.

Ninguém joga com possibilidades melhor que Deschamps. E então, Pogba, talvez o astro que mais tenha abraçado a filosofia de Deschamps, se preocupando apenas com bola, um corte de cabelo nada-interessante, matou o jogo. Seu primeiro chute foi bloqueado, mas a bola se ofereceu novamente para o volante do Manchester United. E ele não perdoou. Desesperados, os croatas se lançaram para o ataque. O gol de Mbappé, que estava escrito, aconteceu. França liderava por 4 a 1. Houve tempo suficiente ainda para que os franceses brincassem com a alma croata, quando Hugo Lloris, em um lapso mental, tentou driblar Mario Mandzukic e perdeu a bola. 4 a 2.

Um resultado mais justo. Os torcedores da Croácia, que deram show durante toda a partida, ovacionaram seus heróis quando o minuto 90 chegou. Eles vão se lembrar dessa campanha nos becos de Spalato, nas praças de Zagreb e nas praias de Hvar. E podem ter certeza que, em algum lugar na Croácia, uma criança será inspirada para se tornar o próximo Modric, que venceu o prêmio de melhor jogador da Copa do Mundo.

Assim como o próprio Modric, há vinte anos, se inspirou para se tornar o próximo Davor Suker. E por aí vai. Por que não ir além? Por que não inspirar países do tamanho da Croácia? Como dizia o slogan pintado pelo técnico Dalic no ônibus do time: “Um pequeno país com grandes sonhos”.

“Se você trabalha duro e tem bons jogadores, você pode conseguir um resultado positivo”, disse ele. “Mas tudo começa com um sonho, uma ambição. É por isso que essa é uma excelente mensagem. Tanto no futebol, quanto na vida”.

No apito final, todo sofrimento de Deschamps deu lugar ao alívio. E assim, ele se juntou a Franz Beckenbauer e Mário Sérgio Lobo Zagallo, como únicos homens a vencerem a Copa do Mundo como jogador e como técnico. E ele fez do seu jeito. O jeito do Didi. Bem diferente daquele de Aime Jacquet, que deu o primeiro título para a França, em 1998. E aqui vai um aviso. O tempo está do lado deles. Tem muito mais de onde veio…

Assim como esperamos que haja mais do que vimos nesta Copa do Mundo, que se tornou uma festa universal de 32 dias, cheia de histórias, drama e euforia. Bem diferente do que nos disseram que seria: racismo, hooliganismo, segregação.

O jogo mais famoso do mundo está vivo e muito bem, obrigado. O mundo tem um campeão digno. Além disso, tivemos um inspirador 2° colocado, que pavimentou o caminho para que outros países “pequenos” sonhem com a elite do futebol.

Catar, você tem um baita de um ato para dar sequência.

Fonte: ESPN

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