Calum Thomson observa atento o Boeing 777 da Emirates decolar do aeroporto de Glasgow, capital da Escócia.

O jovem de 18 anos passou grande parte dos últimos dez anos observando aviões subirem e descerem na companhia de familiares.

Mas, desta vez, a ocasião é mais especial.

A administração do aeroporto deu a algumas pessoas acesso a uma área restrita de onde se tem a melhor visão de uma das pistas de decolagens.

Calum está lá com o pai, Tommy, de 48 anos, e dezenas de outros integrantes do Grupo de Observadores de Aeronaves de Glasgow, que reúne pessoas interessadas em aviação e que gostam de observar aviões.

Um evento como esse é desafiador para Calum, que tem autismo. O transtorno neurológico provoca nele hiperatividade, comportamentos compulsivos e explosões de humor.

Tommy tira fotos de Calum observando aviões quase todos os dias. Ele diz que o aeroporto é o “local de felicidade” do filho. “Assistir, fotografar e filmar aeronaves ajudam Calum a controlar suas emoções”, explica.

“Ele gosta de tirar fotos e acompanhar os voos por meio de diferentes aplicativos de celular. E ele gosta de anotar os registros dos voos, o que é um bônus, porque isso o ajuda na escola e a desestressar.”

Tommy diz que a observação de aviões ajudou Calum a “evoluir de maneiras que ele não seria capaz de descrever”.

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“Quando Calum está tendo uma crise, é como se tivesse um moinho de vento girando na cabeça dele. Você não consegue conversar ou racionalizar com ele”, afirma.

“O aeroporto ajuda a fazer as coisas voltarem ao normal. Ele fica mais relaxado, mais calmo e o maior bônus é a interação social (com outros observadores).”

Tommy destaca que o hobby tem ajudado Calum a aprender a conversar com pessoas e a interagir com aqueles ao seu redor.

Paixão compartilhada

O menino não está sozinho na paixão por aviões. O grupo de observadores de aeronaves da Escócia tem mais de mil membros.

“Temos diferentes perfis dentre os integrantes. Há observadores, pilotos, funcionários de empresas aéreas e do aeroporto, e pessoas de todo o lugar do mundo que simplesmente têm interesse em aviação”, afirma o administrador do grupo, Tommy Donachie, de 41 anos.

Donachie, como vários outros membros do fórum, desenvolveu interesse pela observação de aeronaves quando era criança.

“Meu pai costumava me trazer aqui”, lembra ele. “Crescendo nos anos 80, os aviões daquela época eram muito mais barulhentos. Eles costumavam chacoalhar as casas”, lembra.

“Eu queria ser piloto, mas não consegui notas boas o suficiente para isso. Aí me interessei por ciclismo e costumava andar de bicicleta ao redor do aeroporto com a minha máquina fotográfica. (O grupo) se desenvolveu a partir daí”, disse.

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Um dia especial para ele foi quando a maior aeronave de passageiros do mundo pousou em Glasgow. “O A380 esteve aqui em 2014. Havia milhares de pessoas querendo ver o avião. Foi o dia mais movimentado que eu já vi no aeroporto.”

Outro coordenador do grupo, Kevin McGonigle, diz que os membros da comunidade avisam uns aos outros quando sabem de algum movimento aéreo interessante ou diferente do usual, especialmente quando há uma aeronave grande envolvida.

“Todos gostam das aeronaves pesadas, como as da Emirates e o ‘jumbo’ da Virgin”, afirma.

Segundo ele, o que todos mais querem é conseguir uma posição privilegiada para observar o avião e tirar boas fotos.

“É como uma caça. Estamos sempre em busca de coisas diferentes, que não vemos com tanta frequência.”

Kevin admite que alguns podem considerar que os entusiastas por aviões são “nerds”.

“Eu costumava achar engraçado aqueles caras nas pontes que observavam caminhões. E claro que também tem gente que gosta de trens. Eu gosto de pensar que todos temos um lado nerd. O nosso é aviação e fotografia.”

A abertura do campo de observação, na área restrita do aeroporto, marca uma aproximação especial entre os integrantes da comunidade de admiradores de aviões e as autoridades do aeroporto de Glasgow, que se preocupam em garantir a segurança dos voos.

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Para Michael McQuade, que integra o grupo de observadores e é, também, funcionário do aeroporto, essa aproximação pode beneficiar a todos.

“Eles podem nos dar acesso às melhores áreas para tirar fotos. Por outro lado, eles sabem que nós temos intimidade com o aeroporto. Eles pedem que a gente avise se vir algo que fuja do normal, então é bom para os dois lados.”

A direção do aeroporto de Glasgow já considera a possibilidade de ampliar o acesso do grupo para outras áreas hoje restritas.

Enquanto isso, Tommy diz que vai continuar a levar Calum para observar aviões com a maior frequência possível.

“Tenho certeza de que outras crianças e adultos autistas se beneficiariam dessa observação de aviões. Ele ama tudo o que tem a ver com aviação. E ele está feliz. Que pai não fica feliz ao ver seu filho feliz?”

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Fonte: metrojornal.com.br