Flávio José fala sobre momento ‘complicado’ e critica falta de espaço para artistas locais


Cantor, compositor e sanfoneiro, Flávio José é uma boa definição de forrozeiro raiz. E, por isso, não dá para falar de São João e o mês de junho sem conversar com ele. Nesse bate-papo com o iBahia, o forrozeiro falou sobre a rotina de trabalho em tempos de pandemia e como conseguiu se adaptar ao universo de lives.  

Para Flávio, o momento é complicado e de “angústia e insegurança”, mas destaca que a música é capaz de trazer momentos de descontração. Experiente, o artista também criticou a falta de espaço para músicos locais e que estão no início da carreira. Confira: 

Foto: Reprodução / Instagram

iBahia: Infelizmente, chegamos ao segundo ano sem São João por causa da pandemia. Sabemos que muitos artistas têm o principal sustento tirado nessa época do ano, então queria saber de você, um artista experiente, como você enxerga esse momento? Imaginava lá atrás que a gente ainda estaria assim hoje? 

Flávio José: Eu vejo com muita preocupação. Mais um ano sem São João não é brincadeira não. A gente tem contas a pagar, tem muitos que dependem da gente, com suas famílias e está sendo muito complicado. Queira Deus que para o ano a gente não fique em casa novamente. Ainda tenho essa interrogação na minha cabeça, mas está muito complicado. 

iBahia: E você consegue vislumbrar algum plano para o ano que vem? Acredita que os fãs do forró poderão matar a saudade ou para você ainda está tudo muito incerto? 

Flávio José: Como você sabe, por enquanto, a gente fica matando a saudade dos fãs através das lives. E o pior de tudo nesse momento de pandemia é que a gente não pode nem trazer muita gente para live. Eu fiz minha participação eu, a sanfona e um microfone, e acompanhado por um VS nas gravações que eu já fiz. Minha filha Lara também está fazendo assim.

Tem artistas que ainda correm o risco de fazer lives com os músicos, mas eu nem quero correr riscos e nem quero levar risco. Por isso que eu prefiro que eles [músicos] fiquem em casa assistindo minhas lives. Então é isso, a gente senta ali com a sanfona e o microfone e vai cantar, e interagir quando for possível. Tentar amenizar o sofrimento e ansiedade das pessoas que estão em casa

 A gente torce que de repente cheguem vacina suficiente para imunizar a população, se não vai ser complicado e ano que vem teremos que ficar em casa novamente.  

iBahia: Você falou de Lara, sua filha, e eu queria saber como é essa relação de pai e filha também como parceiros de trabalho. E se você sente aquele orgulho de ela ter se inspirado em você, de ter seguido sua carreira. 

Flávio e a filha, Lara Amélia / Foto: Reprodução

Flávio José: Eu acredito que sim, até porque na palavra diz: ‘cuidado com o que você faz e está dizendo na frente dos seus filhos, que eles estão te olhando’ [risos]. E desde criança ela via ensaios e depois shows, então acho que isso incentivou muito. Eu sou muito feliz porque ainda estou aqui para ver minha filha. Ela está em Campina Grande fazendo faculdade de medicina, e já tem uma formatura de arquitetura, mas depois ela disse: ‘pai, não senti firmeza, não, vou para medicina.’ [risos].  

E toda vida eu passei essa experiência de vida minha, e dizia: ‘não se confie na música, porque a música é muito duvidosa. Procure se profissionalizar e ter um pé na profissão e um pé na música’.  E aí o que der melhor, ela junta, se não der, ela já está segura em algum canto. E nisso ela se deu bem. 

iBahia: Mas você chegou a ter essa duplicidade de carreira também? Porque pelo que pesquisei você começou bem novinho. 

Flávio José: Aos 13 anos eu fui tocar em uma orquestra, aqui próximo, em uma cidade de Pernambuco. Aos 17 eu formei um grupo de bairro com dois colegas do colégio na época. E meus pais eram muito pobres, não tinham condição de me colocar para estudar. E aí quando eu terminei minha etapa [de estudo] aqui na cidade, eu pensei que se meus pais não têm condição de me mandar estudar lá fora, eu levaria 10 anos para me formar sem perder nenhum ano e ainda ficar desempregado.  

E aí eu tinha muita amizade com uns funcionários do Banco do Brasil e pedi para um deles comprar umas apostilas para mim, para eu estudar para o concurso. E ele respondeu que compraria, me daria de presente e ainda me ensinaria tudo do concurso. E aí em pouco tempo eu estava no banco, justamente porque não queria ficar só na música. 

iBahia: Sempre nessa época do ano se questiona muito os espaços que dão a outros gêneros musicais, como sertanejo e o próprio axé, e de pessoas de fora do Nordeste.  Queria saber o que você, como um forrozeiro raiz, acha disso? 

Flávio José:  Eu não tenho nada contra a qualquer segmento da nossa música, mas acho que os promotores de evento deveriam acreditar e dar oportunidade para quem, principalmente, está começando. Conheço muita gente boa que desistiu e jogou a toalha porque tentou, tentou e não conseguiu espaço para se apresentar em uma vitrine qualquer, em um São João, porque o pessoal sempre argumenta: ‘você não conhecido, não tem nenhum sucesso’. Mas não é assim, se não der oportunidade, no dia que os de cima, que já são consagrados forem embora, e aí? Vai parar tudo? Não. Tem que ter oportunidade para esse pessoal também. E também deviam dar prioridade para nossa música na nossa festa, porque a gente sabe que existem muitas festas por aí nas quais os artistas de lá são prioridades, não levam ninguém daqui.

Então eu acho que, pelo menos, já que querem mesclar o estilo, deveriam ter um percentual maior de pessoas daqui, em nome da nossa festa, da nossa cultura.  

A sanfona e o microfone descontraem o cantor durante a pandemia / Foto: Divulgação

iBahia: Como tem sido a rotina criativa e de trabalho na pandemia? Acredito, óbvio, que mudou muito. Então como você se adaptou a isso? 

Flávio José: Tem sido, muito, muito sofrido. Para você ter uma ideia, eu acordo todos os dias 8h da manhã, saio de casa, venho na rádio [Flávio é proprietário da Rádio Monteiro FM, em Monteiro, na Paraíba], fico até 12h e depois de almoçar vou direto para meu quarto e me tranco, só saio no dia seguinte. Isso a um ano e seis meses. É cruel. Eu não sei não, a gente vive em um mar de incerteza e insegurança, de desesperança, e a gente fica feliz quando chega um período assim, que podemos fazer uma live, porque a gente se descontrai. Eu tenho uma vantagem porque quando começo a tocar e cantar parece que os problemas automaticamente vão embora. Mas aí quando acaba a live, volta tudo ao normal de novo. Infelizmente. 

iBahia: Para finalizar, eu queria saber sua relação com a Bahia, com nosso estado, se você guarda bons momentos dos São Joãos daqui. 

Flávio José: Quando me fazem essa pergunta eu sempre sorrio, porque é uma coisa muito bacana, muito bonita. É um relacionamento perfeito. As pessoas me adoram e eu adoro esse povo, que tem uma energia sensacional. E é muita saudade, nunca mais nos reencontramos nos palcos, nas estradas, nos hotéis, nos restaurantes… a gente fica muito pensativo. Mas essa energia baiana é também o que nos sustenta, pode ter certeza disso.  

Confira o bate-papo em vídeo:





Fonte: iBahia