Opinião ou crime? Influenciadora e especialistas falam sobre haters e ataques na internet



Em uma realidade onde as redes sociais são uma maneira cada vez mais forte de consumir conteúdo, muitos querem aparecer através delas. Os artistas, outrora tão distantes, se mostram mais “humanos” através de Stories no Instagram ou tuítes. Além deles, os influenciadores, nascidos e criados nas redes, atraem cada vez mais seguidores, fãs e… haters.  

A lógica parece simples: quanto mais relevante, mais seguidor o influenciador ganha, mais ele se expõe e mais ele fica exposto a ataques em comentários nas redes sociais. Mas, ao contrário do que muitos pensam, isso não deveria ser visto como algo natural. Um comentário odioso tem consequências e seu autor deve ser responsabilizado.  

Influenciadora Pati Quental tem que lidar com os haters na internet / Foto: Reprodução / Instagram

A psicóloga Sara Santon explica que os haters das redes sociais ainda são um fenômeno novo, que vem sendo estudado do ponto de vista psicológico, mas ela consegue apontar diversos danos a quem está sendo cancelado – e também a quem cancela. 

“As pessoas tendem a se unir e executarem esse cancelamento. E isso gera uma satisfação muito grande. Mas também causa diversos danos. Tanto no cancelado, quanto em quem está cancelando. Como, por exemplo, a ansiedade, tristeza, e uma possível depressão. Naquele que está sendo cancelado, gera angústia e medo”, elencou a profissional. 

Para ela, essa sensação de satisfação e poder gerada ao criticar ou apontar o dedo para uma pessoa que, efetivamente, você não conhece, estimula esse tipo de comportamento dos haters. “Traz um sentimento de estar fazendo justiça. Você está ali dizendo o que o outro precisa fazer ou se comportar”, diz, lembrando que “falta empatia” a essas pessoas. 

Não faltam exemplos de famosos que passaram por situações extremas de ataques e cancelamentos. A mais recente envolveu a cantora Luísa Sonza. Após a morte do filho do ex-marido da artista, Whindersson Nunes, internautas foram ao perfil dela afirmar que Sonza era a culpada pela partida prematura de João Miguel. Os ataques fizeram a cantora se afastar das redes sociais e adiar o lançamento do novo álbum. 

Tudo fica ainda mais intenso quando você topa participar de um reality show que vai expor sua vida e suas atitudes em rede nacional. Para os ex-participantes do Big Brother Brasil, a fama vem junto com uma cobrança e muitas vezes, cancelamento.  

Sonza chora após ataques / Foto: Reprodução

Para Lumena, participante do BBB21, o anonimato foi deixado de lado e substituído por uma chuva de haters. A postura da psicóloga ao “militar” dentro da casa foi vista como agressiva pelo público. Em entrevista recente ao programa ‘Foi Mau’, da RedeTV!, a baiana afirmou estar “assumindo o B.O” e que se afastou da militância. 

Pati Quental, influenciadora baiana voltada para o conteúdo de moda plus size e beleza, com mais de 27 mil seguidores no Instagram, sabe o que é sofrer com comentários de ódio nas suas redes sociais.  

Trabalhando com internet desde 2009, ela fala que os ataques começaram a se intensificar quando passou a postar mais conteúdo sobre “autoestima e amor próprio, enquanto mulher gorda”.

“É sempre corriqueiro que quando conteúdos viralizem, eu receba mais ataques. Costumo receber mais ataques de haters fora da minha bolha, fora dos meus seguidores. São comentários ofensivos, tentando diminuir o meu trabalho, e me fazer sentir culpada pelo meu corpo, desumanizar o corpo gordo em geral”, conta a influenciadora, que reforça: “quando algum conteúdo viraliza, é quase certo que vai vir ataque”. 

Entre eles, o pior que já sofreu na internet aconteceu quando foi exposta por um perfil com um grande alcance. “Foi um conteúdo pejorativo sobre o meu corpo, sobre o corpo gordo”, rememora. Nesse caso em específico, ela procurou uma ajuda jurídica. Hoje, Pati conta com uma equipe jurídica que a ajuda na luta antigordofobia.  

Quando as redes sociais fazem parte do trabalho da pessoa, se afastar 100% pode não ser uma opção. Mas para a psicóloga Sara há formas de evitar a exposição e também de se blindar quando os comentários aparecem. 

Para Sara, é preciso ter cuidado antes de falar ou dar alguma opinião nas redes sociais. Ela aconselha sempre buscar uma maneira respeitosa e cuidadosa de abrir esse tipo de diálogo.  

Uma vez que os haters já existam ou o cancelamento já tenha sido feito, a psicóloga aconselha não remoer tanto o assunto. “Se você errou, é necessário se desculpar, se retratar, é uma coisa importante. Mas é importante se colocar de uma forma que não dê mais espaço para ataques”, ressalta.  

Pati, que convive exaustivamente com comentários ofensivos, tenta lidar com isso da maneira mais prática: ignorando e bloqueando. “Bloqueio, ignoro, apago os comentários. Tento evitar e não alimentar”, conta. 

No entanto, em algumas situações a influenciadora aproveita os haters para levantar o debate sobre causas importantes, como a gordofobia. “Um dos braços da gordofobia é esse ataque, é tentar desumanizar, desvalorizar o indivíduo gordo. Então, a gente precisa estar sempre falando sobre isso, mas no geral eu apago e ignoro, porque não me vale o desgaste”, pondera. 

Para ela, a melhor forma de se blindar é se fortalecer. “Você entender seu próprio valor mesmo, pra poder entender que o que aquelas pessoas falam de ruim pra você diz mais sobre elas do que sobre você, porque elas não sabem, né? Quem eu sou, não sabem a da minha vida, da minha história, quem sabe sou eu. Então preciso colocar bem na balança isso de entender que o que o outro traz de sobre o outro, não sobre a gente”, diz. 

“Minha opinião” ou crime? 

O argumento utilizado por muitos “comentaristas” de redes sociais é que é “apenas opinião”. Mas não é simples assim. E não só do ponto de vista moral, mas também jurídico.  

Muitos desses comentários podem ser enquadrados como calúnia, injúria ou difamação, por exemplo, que se configuram crimes, apesar do Brasil não ter uma legislação sobre discurso de ódio.  

“O discurso de ódio pode ser conceituado como a prática de violência linguística, seja ela verbal ou não verbal, dirigida a uma pessoa ou grupo de pessoas com o claro propósito de retirar-lhe a dignidade ou animalizá-la, de retirar a sua condição de sujeito de direito que lhe é inerente, ou seja, o agressor ou a agressora não vê essa vítima como uma pessoa com dignidade, como um sujeito ou uma sujeita de direito. Se vê, na verdade, como superior a ela e dessa maneira ela pratica vários crimes de ódio que podem configurar vários tipos penais”, explica o advogado Vinícius Santana.  

E a internet é um novo “modus operandi” de quem antes agia assim na “vida real”. E com a facilidade de poder se esconder atrás de perfis fakes. “Eles se valem da maior dificuldade de o corpo policial identificá-lo justamente pra praticar as suas atividades criminosas”, destaca. 

A Constituição brasileira de 1988 garante, sim, o direito à liberdade de expressão, mas o advogado ressalta que esse direito tem que “vir para pluralizar as circulações ideológicas compostas na sociedade e não para agredir e limitar a prerrogativa jurídica de outras pessoas”. 

O que uma pessoa atacada pode fazer?  

Segundo Vinícius, ela pode processar civil e criminalmente o agressor ou agressora praticantes do discurso de ódio.  

“Caso seja uma pessoa real, que tenha se valido do próprio perfil dela, deve-se acionar a delegacia do seu território, uma delegacia de crimes virtuais. Onde a pessoa mora é até melhor. Essa delegacia vai identificar qual foi a prática criminosa que supostamente o agressor ou a agressora praticou. Se foi uma prática de ação penal privada, será aberta um termo circunstanciado, uma investigação e no fim desse termo circunstanciado será disponibilizado para que a pessoa se dirija ao Juizado Especial Criminal e processe criminalmente e também se dirige a vara cível e entre com uma ação de indenização pra ser ressarcida seu abalo psicológico”, explicou. 

Pati Quental reforça a importância de saber que algo pode ser feito para punir aqueles que têm esse tipo de atitude. “É importante que a gente saiba que as pessoas não podem falar o que quiserem, que a gente pode sim se proteger, deve se proteger, procurar medidas legais, porque elas só sentem o quanto machucam o outro quando são afetadas pela lei”, opina.  

Como denunciar nas redes 

Mesmo que o atacado decida não processar o hater, é possível denunciá-lo nas redes sociais. Cada plataforma possui uma política, mas todas fornecem a opção de indicar um comentário, postagem ou perfil ofensivo.  Confira como denunciar um perfil nas principais redes: 

Para denunciar um tuíte, o usuário deve clicar nos três pontinhos do lado direito do post e, em seguida, reportar a publicação, informando como “abusivo ou prejudicial”. 

A plataforma irá solicitar informações adicionais sobre o caso, que ficará em acompanhamento. 

Assim como o Twitter, o usuário deve clicar nos três pontinhos no lado direito superior da foto e clicar em denunciar.  

Em fevereiro de 2021, o Instagram anunciou que atualizou sua política para combater o abuso na plataforma e afirmou que as “regras sobre discurso de ódio não toleram ataques a pessoas com base em suas características protegidas, incluindo raça ou religião”. 

Para denunciar uma postagem no Facebook, também é necessário clicar nos três no lado direito superior da publicação e clicar em denunciar.  

A rede social informa que, entre as proibições de conteúdo da plataforma estão: discurso de ódio, ameaças reais ou ataques diretos a um indivíduo ou grupo. 





Fonte: iBahia