‘Filha de mulher negra e primeira médica da família’, celebra 1º lugar na UFBA


Keyla Sacramento, 19 anos, quer conhecer a área da cirurgia cardiovascular e fazer pesquisa para ajudar, em especial, a população negra (Foto: Arquivo Pessoal)

Com quantas mãos se faz um sonho? Para Keyla Nascimento, aprovada em 1° lugar no curso de medicina da Ufba e também na Unicamp, a conquista foi coletiva. 

“É uma realização muito importante pra mim, uma mulher negra, filha de uma mulher negra, primeira mestra e doutora da família. E agora eu vou ser a primeira médica da família. É um sonho coletivo poder mostrar isso pra meus mais velhos e para mim mesma”, celebrou em entrevista ao iBahia. 

Aos 19 anos, a estudante de Salvador fez diferente do que se espera, ou ao menos se imagina, de um vestibulando do curso mais disputado do país. A jovem, que acertou 161 questões no Enem e tirou 960 pontos na redação, passou o ano se preparando, mas também respeitando os  limites pessoais.

Ao invés de passar horas seguidas estudando sem parar, Keyla buscou equilibrar a jornada com momentos de lazer. Favorável à metodologia ativa, ela contou que não tinha um horário de estudo definido durante o dia ou uma única técnica para estudar. 

“Minha trajetória é longa. Eu, desde sempre, sou muito empenhada. Então, pra mim foi muito natural o processo de estudar bastante e dar o gás máximo. Mas, eu respeitei muito os meus momentos de cansaço também”, contou. 

Segundo a jovem, o autoconhecimento foi fundamental. Por exemplo, por saber que é uma pessoa muito matinal, ela buscava sempre começar o dia com as disciplinas que tinha mais dificuldade e as que tinha mais facilidades acabavam sendo deixadas para o fim. 

“A chave para mim sempre foi tentar respeitar meus momentos de produtividade mais baixa, e aumentar a produtividade nos dias em que eu me sentisse melhor. Estudo de qualidade, mesmo. Nesses dias eu estudava de 5h da manhã até 23h, por me sentir bem”, explicou. 

“Cada pessoa é uma pessoa. A gente não precisa seguir só aquilo que todo mundo está dizendo”, pontuou. 

Diariamente, Keyla respondia questões. Adepta da “aula invertida”, modelo em que se antecipa e estuda o conteúdo antes da explicação em sala, a jovem buscava responder simulados e analisar respostas erradas. Fazia provas de ciências da natureza, uma ou duas vezes da semana. Assistia vídeo-aulas, resoluções de questões e alternava assuntos. 

Para a redação, considerada uma nota essencial para alunos que fazem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ela praticava semanalmente. Lia a correção das próprias produções, analisava redações notas 1000 e buscava procurar índices que combinavam com os assuntos passados. 

Nas paredes do quarto que marcaram sua trajetória, post it de com erros de questões coloriam o ambiente. Do quarto à rede de casa, Keyla buscou o equilíbrio na rotina até conseguir a aprovação. 

Keyla colava post its coloridos na parede dos quartos com erros de questões para sempre revisar e relembrar (Foto: Arquivo Pessoal)

“Eu fazia questão de viver a minha vida pessoal. O mais importante é o equilíbrio”, disse, enquanto falava também sobre a importância da família. 

Filha de professora e ex-vice prefeita de Salvador, Celia Sacramento, Keyla lembrou com carinho dos momentos em que recebeu apoio dos familiares. Segundo a jovem, a mãe sempre a ajudou nos momentos de mais tensão. Entre conversas, acarajés, BBB e séries, a rede de apoio foi fundamental também para enfrentar o momento da pandemia. 

Estudar durante o período foi difícil. Com o fechamento das escolas por causa da Covid-19, Keyla teve diversas privações no último ano escolar.

Keyla cursou o 3° ano do Ensino Médio durante a pandemia e precisou ter aulas online (Foto: Arquivo Pessoal)

“Foi difícil. Eu tive um terceiro ano pandêmico e eu acabei privada de diversos rituais, um baque na minha vida de estudante, porque senti que não estava encerrando um ciclo. A distância dos meus amigos também foi difícil. O que senti mais falta foi da minha rede de apoio fora da minha família, mas ao mesmo tempo foi muito importante pra mim, pelo autoconhecimento e confiança que adquiri”, contou. 

O desejo de ser médica foi uma construção. Quando criança, Keyla queria fazer “o que achava mais legal”. Pensou em ser advogada, em estilista por causa dos programas de televisão que assistia, e até diretora geral da ONU. 

Mas, com a maturidade e a idade, Keyla começou a descobrir novos mundos e, de 13 para 14 anos, repensou o que queria ser quando crescer: “decidi que queria ajudar pessoas, ter um impacto”. 

Daí surgiu o objetivo de ser médica. Keyla quer não só atuar na profissão, como também pesquisar para ajudar o máximo de pessoas possível. 

“Entendi que às vezes a gente muda o mundo fazendo menos, que eu não precisava ser diretora geral da ONU para mudar o mundo. Se eu ajudo uma pessoa, eu já consigo mudar o mundo inteiro dela”, refletiu. 

E assim, desde então, Keyla colocou a medicina como um objetivo e ambição acadêmica. Fez Enem pela primeira vez como “treineira” no primeiro ano, e depois disso repetiu a dose mais três vezes. Mas, apenas em 2020 foi “pra valer”. 

Também tentou Unicamp – faculdade dos sonhos – três vezes. Foi aprovada com a nota do Enem de 2020. E, foi aprovada na Universidade Federal da Bahia (Ufba) em 1° lugar. 

“A melhor coisa que você pode fazer pelos seus ancestrais é dar certo”

Mulher, jovem e negra, Keyla entende muito bem a importância dos passos que têm dado e onde deseja e pode chegar. “A melhor coisa que você pode fazer pelos nossos ancestrais é dar certo”, disse relembrando uma frase que a marcou e que virou lema. 

Keyla vê o momento como simbólico e, também, como um avanço de esperança para ela e para outras meninas e meninos, jovens negros do país. 

“Num país tão racista e tão sexista, uma menina negra ficar em primeiro lugar na Universidade Federal da Bahia, a primeira universidade do Brasil, é muito simbólico. Estamos caminhando, avançando, ocupando os espaços que sempre merecemos ter. Muitas meninas dizendo que sou inspiração”, disse.

“É muito sobre representatividade, não só sobre aparecer na TV, mas a posição que aparecemos. Que podemos também ocupar espaços de poder, podemos entrar nos cursos mais concorridos, as profissões mais bem remuneradas”, reflete. 

“Poder fazer isso por mim, pela minha família, pela comunidade negra é muito importante. É um explosão de sensações”, concluiu. 

Agora, Keyla parte para a Unicamp, em São Paulo, faculdade escolhida para viver o sonho. 

Mas também pretende ajudar jovens estudantes que desejam cursar medicina ou prestar vestibular. Para isso, ela vai usar as plataformas digitais (@keyla_sacramento) para dar dicas, doar materiais e ajudar com conteúdos. 

“É um sonho nutrido por muitos e há muito tempo”, finalizou.

*Reportagem sob supervisão da coordenadora Danutta Rodrigues





Fonte: iBahia