O Carnaval 2026 no Pontal do Peba, distrito de Piaçabuçu, terminou cercado de controvérsias. O que tradicionalmente impulsiona o turismo e aquece a economia local foi marcado por baixo movimento, reclamações de comerciantes, críticas políticas e um embate entre órgãos ambientais e o poder público municipal.
Antes da festa, o Ministério Público de Alagoas recomendou que o evento ocorresse sem circulação de veículos na faixa de areia e sem paredões de som, com base na Constituição Federal, em leis ambientais e nas normas da Área de Proteção Ambiental de Piaçabuçu. A fiscalização contou com 64 policiais, apoio de unidades especializadas e guincho para remover veículos irregulares. Blocos cadastrados puderam desfilar, mas com limite de 20 minutos com carros de som na orla.
Movimento fraco e prejuízo econômico
Durante os dias de folia, o cenário foi considerado esvaziado por moradores e comerciantes. Houve relatos de queda brusca no faturamento, redução no número de turistas e frustração de trabalhadores informais que dependem do período para garantir renda.
Também surgiram queixas sobre abordagens a proprietários de imóveis à beira-mar. Embora moradores tivessem autorização para acessar suas residências, alguns afirmaram ter sido orientados a estacionar e não circular novamente com seus veículos, mesmo quando a única via de acesso era pela faixa de areia.
O ex-vereador de Piaçabuçu, Tiago Carnaúba, criticou nas redes sociais a forma como as medidas foram aplicadas, afirmando que comerciantes e moradores foram surpreendidos sem planejamento que minimizasse impactos sociais e econômicos.
“A população de Piaçabuçu, especialmente moradores e comerciantes do Pontal do Peba, foi pega completamente de surpresa por medidas impostas de forma abrupta, sem comunicação prévia eficaz, sem transição e sem qualquer planejamento que minimizasse impactos sociais e econômicos”. Ele também afirmou que “preservação ambiental e segurança são objetivos legítimos, mas não podem ser perseguidos à margem da razoabilidade, da previsibilidade e da dignidade econômica das pessoas que vivem na região”.
Defesa do ICMBio

Em resposta às críticas, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade declarou que a Praia do Pontal do Peba é patrimônio natural e não suporta desorganização, acúmulo de resíduos e uso inadequado do espaço.
O órgão afirmou que não cria problemas, mas atua diante de situações que já comprometem o meio ambiente. Destacou que nenhuma unidade de conservação é fechada por vontade própria, mas sim quando não há alternativa técnica ou jurídica para conter danos, inclusive em áreas sensíveis como as de desova de tartarugas. Segundo o instituto, preservar o Pontal é responsabilidade compartilhada entre poder público, comerciantes, organizadores, moradores e frequentadores.
Pronunciamento do prefeito Rymes Lessa
Diante da repercussão, o prefeito de Piaçabuçu, Rymes Marinho Lessa, divulgou pronunciamento oficial esclarecendo o posicionamento do município.
No documento, a gestão afirma que existe legislação estadual que proíbe o tráfego de veículos nas praias da Costa dos Corais, mas que a própria norma prevê exceções para regulamentação municipal. Com base nisso, o Município editou o Decreto nº 08/2025, estabelecendo 20 quilômetros de praia totalmente proibidos para veículos e 2,9 quilômetros com circulação controlada, sob regras de segurança, sinalização e fiscalização.
O prefeito ressaltou que o decreto foi discutido localmente, aprovado com regras claras, incluindo limite de velocidade, proibição de veículos pesados e áreas exclusivas para pedestres e banhistas.
O pronunciamento também informa que o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública questionando o decreto e que houve decisão liminar determinando o fechamento imediato da praia, decisão posteriormente suspensa, mantendo o processo ainda em análise judicial.
Problemas estruturais agravaram o cenário
Além do debate jurídico e ambiental, moradores relataram dificuldades estruturais durante o Carnaval. O Pontal do Peba enfrenta racionamento de água, com abastecimento apenas dois dias por semana, o que deixou imóveis sem fornecimento já no início da semana.
Também houve registros de baixa tensão na rede elétrica. Em uma rede de 220 volts, a voltagem teria chegado a 168 volts durante a noite, prejudicando o funcionamento de ar-condicionado, geladeiras e ventiladores, com relatos de perda de alimentos.

O desafio agora será construir diálogo e planejamento antecipado para que, nos próximos anos, o Pontal do Peba consiga manter sua vocação turística sem comprometer o patrimônio ambiental que também sustenta seu futuro.
Da Redação


