Startup Runway aposta em modelos de vídeo para superar o Google

Runway: uma startup de Nova York que desafia o Vale do Silício com modelos de mundo

Diferente da trajetória convencional das gigantes tecnológicas, a Pista não nasceu de conexões em Stanford ou da linhagem do Google. A startup, que hoje é um dos nomes mais influentes no setor de inteligência artificial, foi fundada em Nova York por três mentes que conheceram na Tisch School of the Arts da NYU: dois chilenos e um grego. Longe dos padrões tradicionais de financiamento inicial, a empresa trilhou seu próprio caminho até se tornar uma protagonista global.

Enquanto o mercado de IA se concentra nos últimos anos em modelos de linguagem, como o Bate-papoGPT da OpenAI e o Cláudio da Anthropic, a Runway aposta em uma direção distinta. A visão da companhia é que a próxima fronteira da inteligência artificial não residirá na destilação de textos, mas na criação de modelos do mundo — sistemas capazes de compreender a física e o funcionamento da realidade através de dados observacionais.

A fronteira da realidade observacional

Para o cofundador e co-CEO Anastase Germanidisuma dependência excessiva de textos da internet limita o potencial da IA. Em entrevista na sede da empresa, próxima à Union Square, ele explicou que os modelos de linguagem atuais apenas processam o conhecimento humano já existente. A estratégia da Runway é, portanto, utilizar dados menos invejados para treinar máquinas que entendam a lógica do mundo real.

Fundada em 2018, uma startup consolidou sua confiança com modelos avançados de geração de vídeo, incluindo o recente Gen-4.5. A tecnologia já é peça-chave nas produções de Hollywood, como o filme Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempoe em fluxos de trabalho de agências de publicidade, além de contar com parcerias estratégicas com empresas como Lionsgate e AMC Networks.

Atualmente avaliado em US$ 5,3 bilhõesa Runway relatou uma receita anual recorrente de US$ 40 milhões no trimestre segundo de 2026. O sucesso financeiro acompanha uma ambição científica: a possibilidade de usar esses modelos como “gêmeos digitais” do universo, acelerando descobertas em áreas que vão desde o entretenimento até a medicina.

Do cinema para a infraestrutura científica

A transição da Runway para os modelos de mundo começou a ganhar forma em dezembro, com o lançamento de seu primeiro sistema capaz de simular ambientes com consciência física. A empresa não está sozinha nessa corrida: concorrentes como Luma, World Labs e o modelo Gênio do Google também busca conquistar essa tecnologia.

A origem dos fundadores — Germanidis, o co-CEO Cristóbal Valenzuela e o diretor de inovação Alejandro Matamala Ortiz — explica a abordagem multidisciplinar da startup. O grupo, que se descreve como formado em uma “escola de arte para engenheiros”, iniciou uma jornada com o objetivo de democratizar o cinema através da IA. Com o tempo, a missão evoluiu.

  • Escala global: A empresa conta hoje com 155 funcionários distribuídos em escritórios em Nova York, Londres, São Francisco, Seattle, Tel Aviv e Tóquio.
  • Aposta científica: O foco atual é a criação de um “cientista melhor que o humano”, capaz de comprimir o tempo de espera de experimentos laboratoriais.
  • Risco e oportunidade: Se a tese de que o vídeo é a chave para a inteligência artificial da próxima geração se confirmar, a Runway será a vanguarda. Caso contrário, uma startup enfrentará uma concorrência de gigantes com maior capacidade de investimento.

“Se pudermos construir um cientista melhor do que os cientistas humanos, podemos acelerar o progresso em como entendemos o universo”conclui Germanidis sobre o futuro que a Runway busca construir.

Runway e a corrida pelos modelos de mundo: o desafio de transcender a geração de vídeo

A Runway, empresa que se consolidou como pioneira na geração de vídeo por inteligência artificial, agora mira um horizonte mais ambicioso: a criação de modelos de mundo. O objetivo é desenvolver sistemas capazes de solucionar problemas complexos que desafiam pesquisadores há décadas, abrangendo áreas como robótica avançada, descoberta de novos medicamentos e modelagens climáticas precisas.

No último ano, a empresa deu passos concretos nessa direção ao inaugurar uma divisão dedicada à robótica. Segundo Germanidis, essa iniciativa já está em fase de testes práticos e implantações reais. A visão da companhia aposta na convergência de diversas modalidades — texto, vídeo, áudio e dados de sensores — em um único modelo de treinamento. A expectativa é que o efeito composto dessas informações seja o diferencial para alcançar modelos biológicos e avanços em pesquisas antienvelhecimento.

O cenário competitivo e os desafios de infraestrutura

A transição do vídeo para modelos de mundo é uma corrida de alta complexidade. A Runway enfrentou uma concorrência robusta, que inclui nomes de peso como Google, Yann LeCun (ex-Meta), Fei-Fei Li e diversas startups bem capitalizadas.

Kian Katanforoosh, CEO da Workera e professor em Stanford, pondera que, embora a transição da inteligência de vídeo para o raciocínio generalizado ainda não tenha sido provada, ela é teoricamente viável. O obstáculo central, segundo ele, reside na capacidade computacional. Para competir no nível de modelos de fronteira, o acesso a clusters de computação dedicados é necessário.

Embora a Runway possuísse parcerias estratégicas com a CoreWeave e a Nvidia, a empresa não confirmou se detém acesso aos clusters massivos necessários para o treinamento de modelos dessa magnitude. Katanforoosh questiona as previsões de construir um modelo fundamental sem essa infraestrutura garantida, embora cite o caso da ElevenLabs como um exemplo de startup que superou gigantes sem possuir o mesmo volume de recursos.

Capital e estratégia de mercado

Até o momento, a Runway arrecadou US$ 860 milhões, incluindo uma rodada de US$ 315 milhões concluída em fevereiro, que contou com o suporte da AMD Ventures e da Nvidia. Em termos de financiamento, a startup se alinha a concorrentes como Luma AI (US$ 900 milhões) e World Labs (US$ 1,29 bilhão).

No entanto, a disputa ocorre em um terreno dominado por titãs:

  • OpenAI: que anunciou cerca de US$ 175 bilhões.
  • Google: cuja controladora, Alphabet, possui um valor de mercado de US$ 4,86 ​​trilhões.

O Google surge como a ameaça mais direta, com o modelo Veo competindo no segmento de vídeo e o Genie explorando o campo dos modelos de mundo. Por outro lado, a trajetória da OpenAI com o Sora — que foi encerrada em março após custos operacionais diários de US$ 1 milhão geram apenas US$ 2,1 milhões em receita — serve como um lembrete de que os recursos financeiros não garantem, por si só, a sobrevivência no mercado.

Fora de Cultura e Inovação do Vale do Silício

Para Valenzuela, co-CEO da Runway, a ausência de laços estreitos com a cultura tradicional do Vale do Silício é um trunfo. Ele defende que essa distância forçou a equipe a ser mais engenhosa e a gerar receita precocemente. Michelle Kwon, diretora de operações, reforça que a empresa não sente urgência em captar novos transportes, mesmo diante da crescente demanda por processamento.

O investidor inicial Michael Dempsey, sócio-gerente da Compound, destaca que o histórico da Runway é marcado pela capacidade de pioneirismo e por uma cultura de execução extremamente rápida. Valenzuela, que busca inspiração em figuras como o poeta chileno Nicanor Parra, vê as normas do setor como meras convenções artificiais.

As regras são apenas construções feitas por outros. Isso é o que move a pista. Por que devemos seguir o que o Vale do Silício dita? Apague tudo e comece de novo.

Imagem ilustrativa: Pexels / Huy Phan.

Fonte: Techcrunch