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A Copa do Mundo e a intersecção de identidades e fronteiras
A cada quatro anos, o mundo se reúne para testemunhar um evento que vai além do esporte: a Copa do Mundo é mais que um torneio. É um palco onde se entrelaçam histórias de imigração, identidade e tradições culturais. Neste cenário, seleções nacionais contam narrativas que transbordam os limites do campo.
Enquanto alguns países se destacam por exportar ideias ou talentos, outros têm encontrado um equilíbrio único: a capacidade de influenciar tanto o cenário técnico quanto o de formação de atletas. Nenhum confronto no torneio de 2026 ilustra melhor esse fenômeno do que o duelo entre Holanda e Marrocos nas oitavas de final.
Historicamente, a Holanda era a escolha natural para jogadores marroquinos nascidos em solo europeu. Por décadas, a crença era de que qualquer atleta com ascendência marroquina alcançando a elite do futebol optaria automaticamente pelo país dos “Moinhos”. Mas essa dinâmica está mudando.
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A transformação nas relações entre federações
O caso de Idris Bousta, nascido no bairro de De Burches em Amsterdã, marcou um marco. Em 1998, Frank Rijkaard o escalou contra a Alemanha, tornando-o o primeiro jogador holandês de origem marroquina a defender a seleção. Na época, a federação marroquina sequer havia tentado contato com ele.
Após atuar três vezes pela Holanda — todas em amistosos —, Bousta jogou duas partidas pelo Marrocos, algo permitido pelas regras da FIFA da época. No entanto, essa escolha não se limita apenas a regulamentações. Para muitos atletas com dupla nacionalidade, a decisão envolve fatores culturais, familiares e profissionais.
Atualmente, a relação entre as federações holandesa e marroquina é radicalmente diferente: cerca de 25% dos jogadores na Copa do Mundo de 2026 nasceram fora do país que representam. Além disso, oito das 48 seleções têm mais atletas nascidos no exterior do que no próprio território nacional.
Entre os exemplos mais emblemáticos está a equipe marroquina, com 19 dos 26 jogadores da convocatória de Mohamed Wahbi sendo estrangeiros. Essa realidade reflete como o futebol globalizado se entrelaça com padrões migratórios.
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Marrocos e a estratégia de recrutamento internacional
Há mais de uma década, a Federação Marroquina de Futebol investiu pesado em identificar talentos com dupla nacionalidade na Europa. Agentes da federação se movimentaram por países como França, Bélgica, Espanha e Holanda, estabelecendo conexões com atletas e suas famílias antes mesmo de eles chegarem às seleções.
Pim Verbeek, ex-técnico marroquino, destaca que a escolha não depende apenas do jogador: a família desempenha papel central na decisão. Essa abordagem resultou em transformações significativas. Em 2018, cinco jogadores nascidos na Holanda estavam na lista marroquina; em 2022, o número subiu para 14.
Enquanto alguns atletas, como Ibrahim Afellay, optaram pela Holanda por oportunidades de brilhar em seleções tradicionais, o Marrocos continuou a fortalecer laços com jogadores de origem estrangeira. Essa estratégia gradual se consolidou ao longo do tempo.
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A geração em transformação e a escolha de Ziyech
Nenhuma decisão sintetiza melhor essa mudança do que a de Hakim Ziyech. Nascido em Dronten, ele cresceu no sistema holandês, representou seleções inferiores da Holanda e foi convocado para a equipe principal em 2015. Apesar de uma lesão ter impedido sua estreia, a mudança na comissão técnica holandesa após o fim do ciclo de Guus Hiddink afastou Ziyech das planificações.
Enquanto isso, a federação marroquina manteve contato constante com ele, apresentando um projeto de longo prazo. Quando Ziyech optou por defender o Marrocos, muitos em Amsterdã ficaram surpresos. Sua justificativa foi simples: “Sempre me senti marroquino… A escolha se faz com o coração.”
Outros atletas seguiram a mesma trajetória. Nasser Mazraoui (Liderdorp), Sofiane Amrabat (Hoessen) e Anas Salahuddin (formado nas academias holandesas) deixaram o país europeu para defender os “Leões do Atlante”. Mesmo Ismail El-Sibari, nascido na Espanha, teve a formação quase inteiramente no PSV Eindhoven.
Apesar de alguns desses jogadores serem considerados candidatos à seleção holandesa sob Ronald Koeman, o fato é que todos são produtos do sistema técnico holandês e hoje defendem um dos principais adversários da Holanda em escala internacional.
Migração e identidade: o impacto de jogadores com dupla nacionalidade na Copa do Mundo 2026
O fenômeno da internacionalização do futebol moderno se reflete em números impressionantes. Em uma das edições mais inclusivas da história do torneio, quase um quarto dos participantes da Copa do Mundo de 2026 nasceu fora do país que representa. Esse dado expõe a transformação no cenário esportivo global, onde raízes culturais e oportunidades profissionais moldam as escolhas de atletas com origens múltiplas.
Seleções com jogadores nascidos fora do país
Dentre as 48 seleções participantes, oito têm mais atletas nascidos em territórios estrangeiros do que no próprio país. Esse equilíbrio entre tradição e modernidade é particularmente visível na seleção marroquina, cuja lista de convocados para a Copa do Mundo conta com 19 jogadores nascidos fora da África do Norte.
O Marrocos, desde o início dos anos 2010, adotou uma estratégia ambiciosa: mapear talentos com dupla cidadania na Europa. Agentes de observação foram enviados para França, Bélgica e Holanda, não apenas para identificar potenciais, mas para construir vínculos com famílias antes mesmo da convocação oficial.
Uma abordagem estratégica
O ex-técnico Pim Verbeek destacou que a seleção marroquina não se limita ao desempenho do atleta, mas considera o contexto familiar como fator decisivo. Essa visão contribuiu para uma revolução no elenco: em 2018, cinco jogadores nascidos na Holanda estavam no time; em 2022, esse número saltou para 14.
Apesar do progresso, a transição não foi linear. Jogadores como Ibrahim Afellay optaram por representar a Holanda, atraídos pela elite europeia. Paralelamente, o Marrocos continuou fortalecendo suas relações com atletas de origem marroquina no exterior.
O caso emblemático de Hakim Ziyech
Nenhuma trajetória personifica essa mudança como a de Hakim Ziyech. Nascido em Dronten, formado no sistema holandês e convocado pela seleção principal em 2015, seu caminho tomou uma virada inesperada. Após uma lesão que o impediu de estrear, ele sentiu falta do reconhecimento na Holanda — algo que o Marrocos supriu com um plano de longo prazo.
“Sempre me senti marroquino… A escolha se faz com o coração”, afirmou Ziyech ao optar pelo país natal. Sua decisão gerou surpresa na Holanda, mas reforçou a imagem do Marrocos como um destino alternativo para talentos internacionais.
- Nasser Mazraoui: Formado no Ajax
- Sofiane Amrabat: Crescido em Hoessen
- Anas Salahuddin: Desenvolvido no sistema holandês
- Ismail El-Sibari: Formação na academia do PSV Eindhoven
Relações entre federações: de tensão a colaboração
A história das interações entre Holanda e Marrocos começa com Idris Bousta, primeiro marroquino nascido no exterior a representar a seleção holandesa. Sua trajetória, que incluiu atuações pela Holanda e pelo Marrocos, ilustra o equilíbrio entre oportunidades e identidade.
A evolução das relações federais reflete o crescimento do Marrocos como potência esportiva. Enquanto a Holanda mantém sua tradição, o país norte-africano consolidou uma abordagem estratégica para atrair atletas com dupla nacionalidade.
Esse movimento reforça que a mudança não é apenas política, mas cultural e pessoal. Para muitos jogadores, a escolha do país representa um equilíbrio entre raízes familiares, oportunidades profissionais e identidade esportiva — fatores que moldam o futuro do futebol global.
Ziyech escolhe o Marrocos após sentir-se valorizado pela seleção
A decisão de Hakim Ziyech de defender o Marrocos em vez da Holanda gerou surpresa no cenário futebolístico europeu. O jogador, que havia passado boa parte de sua carreira na liga holandesa, explicou a mudança como uma escolha motivada por sentimentos pessoais: “Sempre me senti marroquino… A escolha se faz com o coração”, afirmou.
A federação marroquina manteve uma comunicação frequente com Ziyech após a saída de Guus Hiddink da comissão técnica. Ofereceram-lhe um projeto de longo prazo, que destacava sua importância para a seleção nacional. Essa abordagem contrastou com o clima de desvalorização que ele sentia na Holanda, onde sua contribuição parecia menos reconhecida.
A decisão de Ziyech não foi isolada. Outros atletas com formação no futebol holandês também optaram por defender o Marrocos. Nasser Mazraoui, que cresceu em Liderdorp e passou pela base do Ajax, e Sofiane Amrabat, formado em Hoessen, são exemplos de jogadores que preferiram a seleção marroquina aos “Moinhos”.
Anas Salahuddin, formado nas escolas holandesas, e Ismail El-Sibari, cuja trajetória foi moldada pelo PSV Eindhoven, completam um grupo de talentos que desafiam o tradicional fluxo de atletas marroquinos para os grandes clubes europeus.
Mesmo com a presença desses nomes na seleção holandesa, liderada por Ronald Koeman, a mudança de lealdade desses jogadores destaca um movimento estratégico do Marrocos. O país tem se esforçado para atrair talentos com dupla nacionalidade, oferecendo uma visão de futuro alinhada aos interesses dos atletas.
Essa nova dinâmica reforça a importância da seleção marroquina no cenário internacional, transformando jogadores que antes eram considerados “cidadãos do mundo” em pilares de um projeto nacional ambicioso.



