Ex-banqueiro obteve documento sigiloso do MPF dois dias após investigação

Crédito da imagem: Ilustrativo/Gerado por IA

Ex-banqueiro teve acesso a documento sigiloso do MPF em investigação da Caixa Asset

O ex-presidente da Caixa Asset, Daniel Vorcaro, obteve acesso a um relatório preliminar confidencial do Ministério Público Federal (MPF), segundo consta de uma investigação conduzida pela Polícia Federal (PF). O documento, relacionado à tentativa de compra de R$ 500 milhões em letras financeiras pelo Banco Master, foi compartilhado com Vorcaro dois dias após a abertura da apuração pelo órgão.

As mensagens interceptadas no celular do ex-banqueiro revelam que ele recebeu o material dois dias depois da iniciativa do MPF. A área técnica da Caixa Asset havia questionado a operação, considerando-a “arriscada” e “atípica”. O registro formal da notificação de fato foi feito em 18 de julho de 2024, após a Procuradoria da República no Distrito Federal agir dois dias antes.

Relatório técnico alertava sobre riscos do negócio

O resumo do procedimento inclui uma reportagem divulgada em 12 de julho de 2024, que destacou o parecer dos técnicos da Caixa Asset. Eles apontaram que o Banco Master não demonstrava “clareza, efetividade e consistência em seus números”, além de possuir um modelo de negócios “de difícil compreensão” e representar “alto risco de solvência para a instituição”.

Por essa razão, os especialistas recomendaram o cancelamento da operação. O negócio não foi concluído, gerando uma crise na Caixa Asset e levando à demissão dos gerentes Daniel Cunha Gracio e Maurício Vendruscolo. A Controladoria-Geral da União (CGU) abriu uma auditoria na gestora.

PF revela comunicação entre Vorcaro e Sicário

O relatório da PF, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), indica que Vorcaro buscava entender “a natureza, o motivo e o andamento dos procedimentos sigilosos em que seu nome aparece como parte ou possível investigado”. O documento foi tornado público pelo ministro André Mendonça no início da semana passada.

Segundo a PF, Luiz Phillipi Mourão, apelidado de “Sicário”, enviou o material ao ex-banqueiro. A investigação afirma que Mourão recebia R$ 1 milhão mensalmente para acessar investigações confidenciais, intimidar adversários e ocultar informações desfavoráveis à imagem de Vorcaro.

Em uma das mensagens interceptadas, Mourão compartilhou com Vorcaro um trecho que dizia: “Foi cadastro negócio lá da Assets, não tem IP ainda, só NF”. A PF não identificou o autor original do texto. O documento administrativo enviado pela procuradora Luciana Loureiro também foi analisado por Mourão, que alertou Vorcaro sobre a possibilidade de instauração de inquérito policial.

Acesso a documentos gera investigação

O inquérito, instaurado pela Justiça Federal do Distrito Federal, tramita sob sigilo. A PF apura se uma servidora da Procuradoria da República no Maranhão acessou os arquivos de forma irregular. Os investigadores analisam se a consulta foi legítima ou resultou de invasão digital (“hackeio”) ou de acesso direto por parte da funcionária.

“Impõe-se esclarecer se a consulta foi realizada de forma regular, se o acesso foi ilegalmente obtido mediante invasão ou se houve franqueamento direto por parte da própria usuária”, afirma a PF em seu relatório. Em mensagens de 18 de junho de 2024, Mourão pediu a Vorcaro uma lista de pessoas para monitorar, incluindo o pastor Fabiano Zettel (cunhado do banqueiro), Henrique Vorcaro (pai de Daniel) e Nelson Tanure, considerado “sócio oculto” do Banco Master.

“Dos seus quais você quer puxe e te envie?”, perguntou Mourão. “Todos obviamente”, respondeu Vorcaro. “Me dá um update, se quer alguma coisa”, escreveu Mourão três dias depois. “Para puxar o que precisar estamos com acesso total e ilimitado lá ao sistema interno do MPF, só não sei até quando”.

Com informações da Revista Oeste