Futebol traz esperança a crianças do Haiti em meio à violência

Crédito da imagem: Ilustrativo/Gerado por IA

Brasil e Haiti: o contraste de realidades no palco da Copa do Mundo

A Copa do Mundo de 2026 reserva encontros que transcendem as quatro linhas. Nesta sexta-feira, o confronto entre Brasil e Haiti pela segunda rodada do Grupo G coloca frente a frente dois universos distintos: enquanto a seleção brasileira carrega o peso do favoritismo, os haitianos celebram a histórica presença no maior torneio do planeta como uma vitória contra a adversidade.

O cenário que envolve a equipe caribenha é crítico. Desde o devastador terremoto de 2010, que vitimou cerca de 300 mil pessoas, o país enfrenta uma severa crise humanitária. Atualmente, a capital, Porto Príncipe, encontra-se sob domínio de grupos criminosos. Dados da ONU apontam que o Haiti liderou o índice de homicídios em 2024, situando-se em um patamar de instabilidade comparável apenas a regiões como o Sudão e os territórios palestinos.

O futebol como refúgio social

Em meio a esse caos, o esporte surge como uma ferramenta de resistência. O projeto Etoile Brillante (Estrela Brilhante) é um exemplo emblemático dessa luta. Fundado em 2014 por Pudens Saint Louis, então com apenas 14 anos, a iniciativa nasceu no Parque Saint-Therese, bairro de Petion Ville, que serviu como abrigo para mais de um milhão de desabrigados após o sismo de 2010.

O futebol ajudou várias crianças porque era a única coisa que elas faziam. Não havia escola nem hobbies. Campos de futebol viraram o local onde elas fugiam da bandidagem, relata Pudens Saint Louis.

O fundador relembra que a ideia surgiu de uma necessidade pessoal de segurança. Sem liberdade para brincar nas ruas, ele buscou no futebol uma alternativa, contando com o apoio de um ex-jogador local para reunir os primeiros atletas. O que começou entre amigos expandiu-se rapidamente, forçando Pudens a atuar nos bastidores para esconder sua pouca idade e garantir a credibilidade do projeto perante outros treinadores.

Desafios logísticos e estruturais

A instabilidade crônica reflete-se diretamente na preparação da seleção nacional. Devido à falta de segurança e à ausência de voos internacionais regulares, o Haiti não pôde mandar nenhum jogo das Eliminatórias em seu território, utilizando o estádio Ergilio Hato, em Curaçao, como base.

Doze anos após sua criação, o Etoile Brillante consolidou-se como um pilar comunitário. Atualmente, a estrutura conta com:

  • Mais de 150 atletas em formação;
  • Equipe técnica com 11 profissionais, incluindo sete treinadores, três preparadores de goleiros e um fisioterapeuta.

O financiamento é mantido através de patrocínios pontuais e mensalidades flexíveis, onde a contribuição é opcional, garantindo que a situação econômica das famílias não seja uma barreira para a prática esportiva. Pudens, que hoje também atua como comentarista esportivo, mantém o projeto ativo diariamente como um refúgio para jovens que buscam proteção e esperança longe da violência que domina as ruas de seu país.

Futebol no Haiti enfrenta a violência enquanto busca esperança em campo

No cenário do futebol haitiano, manter uma rotina de treinamentos completa é um desafio diário. O comando técnico da iniciativa Estrela Brilhante relata que raramente consegue cumprir uma agenda semanal integral, de segunda a domingo, devido à constante instabilidade provocada pela violência no país.

O impacto da insegurança é direto no desenvolvimento do esporte. Segundo os responsáveis pelo projeto, o crescimento do futebol no Haiti está travado, uma vez que não é mais possível utilizar espaços públicos como se fazia no passado. A defesa é que o investimento em infraestrutura esportiva poderia unir a população e oferecer uma perspectiva de futuro, desde que as oportunidades sejam democratizadas e não restritas a pequenos grupos.

A violência é um obstáculo real para as atividades. Muitas vezes, os pais impedem que os jovens saiam de casa para treinar por medo dos conflitos que tomam as ruas, relatam os organizadores do projeto.

Conquistas em meio ao cenário adverso

Apesar das dificuldades, o Estrela Brilhante segue promovendo jogos e amistosos. O esforço já rendeu frutos importantes para a carreira de jovens talentos. Eugène Jeff, um dos destaques do projeto, brilhou em um torneio local e despertou o interesse do San Isidro, uma escola de futebol na República Dominicana. Esta foi a primeira vez que um atleta formado na iniciativa conseguiu migrar para o exterior, servindo de inspiração para os demais participantes.

Enquanto gigantes do futebol mundial chegam à Copa com a pressão pelo título, o Haiti vive um momento distinto. A nação celebra sua segunda participação na história do torneio com o objetivo de dar visibilidade ao talento local, buscando, ainda que por breves momentos, tirar o país das manchetes negativas e colocar o esporte como protagonista.