Lições da estreia do Novo em 2018 para a Missão em 2026

Missão 2026: uma chance de repetir a fórmula do Novo

A entrada de um novo partido no cenário eleitoral brasileiro sempre gera expectativas sobre como transformar o desempenho do candidato presidencial em uma bancada parlamentar. Em 2018, o Novo mostrou que era possível usar estratégias inteligentes para superar barreiras institucionais. Hoje, a Missão tem um desafio semelhante, mas com ferramentas digitais que o predecessor não possuía.

2018: uma estratégia eleitoral eficiente

No primeiro pleito nacional, o Novo apostou em João Amoêdo como figura de contraponto ao conservadorismo bolsonarista e às propostas do lulopetismo. O discurso focado em eficiência e redução do Estado se revelou decisivo para atrair eleitores. A campanha combinou o desempenho do candidato presidencial com uma atuação estratégica na eleição proporcional, usando o chamado coattail effect, que amplia o apoio a deputados federais vinculados ao nome principal.

Amoêdo obteve 2.679.745 votos (2,5% dos válidos) e elegeu 8 deputados com 2,79% do eleitorado. A proximidade entre o desempenho presidencial e a legenda permitiu que o Novo superasse a cláusula de barreira, garantindo acesso ao fundo partidário e aos meios de comunicação.

Missão 2026: vantagem digital

A Missão entra na corrida eleitoral com desafios semelhantes ao Novo em 2018: ausência de tempo de TV, fundo eleitoral limitado (R$ 3,3 milhões) e um candidato presidencial, Renan Santos, ainda não consolidado nacionalmente. No entanto, a legenda conta com uma estrutura digital sólida, construída ao longo de mais de uma década pelo MBL, que lhe confere uma vantagem estratégica.

A diferença está na capacidade de mobilização da base jovem e digital, um público que pode ser convertido em apoio a candidatos federais se o discurso de Renan for alinhado ao interesse coletivo. O desafio central não é apenas aumentar as intenções de voto presidencial — uma tarefa já em andamento —, mas garantir que essa base seja canalizada para o apoio parlamentar.

A cláusula de barreira e a estratégia de São Paulo

Para atingir os 2,5% dos votos válidos nacionalmente ou eleger 13 deputados federais distribuídos por no mínimo um terço das unidades da Federação, a Missão precisa superar uma série de obstáculos. A região mais promissora é São Paulo, onde Kim Kataguiri e Cristiano Beraldo podem atrair até 1,5 milhão de votos na eleição proporcional.

Com essa base, o partido precisaria de cerca de 1,2 milhão de votos nas demais regiões para atingir os 2,7 milhões necessários para repetir o feito do Novo em 2018. Essa estratégia é reforçada pela pesquisa Atlas/Bloomberg de junho de 2026, que coloca Renan Santos com entre 9% e 10% das intenções de voto válidos em cenários hipotéticos de primeiro turno contra Lula.

O desafio da mobilização parlamentar

A diferença entre o Novo de 2018 e a Missão de 2026 está na capacidade de transformar o apoio presidencial em suporte ao legislativo. Enquanto Amoêdo redirecionou parte da campanha para promover candidatos federais, Renan Santos ainda precisa equilibrar o discurso entre a sua própria trajetória e as demandas coletivas.

Se a legenda conseguir alinhar a estratégia de mobilização digital com uma atuação clara na eleição proporcional, terá boas chances de superar a cláusula de barreira. O desafio está em garantir que o eleitorado jovem e engajado online seja direcionado para os candidatos federais da legenda, algo que pode ser viável com uma comunicação contínua e organizada.

Missão mira em bancada parlamentar com influência de Renan

A força eleitoral de Renan nas pesquisas presidenciais se apresenta como o principal motor da Missão para a disputa proporcional. No entanto, a transformação desse potencial em uma bancada efetiva depende de estratégias deliberadas de direcionamento político. Com base no modelo adotado pelo Novo em 2018 — quando a diferença entre o desempenho presidencial de Amoêdo e os candidatos à Câmara foi inferior a 0,3 ponto percentual —, se a Missão conseguir captar metade dos votos obtidos por Renan, o partido poderia eleger entre sete e oito deputados federais em São Paulo e entre 12 e 15 no total nacional. Esse cenário colocaria o grupo acima da cláusula de barreira e superaria a meta estabelecida no artigo “Os três caminhos da direita para 2026”, que previa ao menos cinco parlamentares.

Desafios para a conquista eleitoral

  • Primeiro, será necessário que a equipe de Renan redirecione parte da comunicação digital e do tempo na TV nos últimos 15 dias da campanha para pleitear explicitamente votos de legenda e nominais. A tática, já utilizada por Amoêdo em 2018, ganhará escala com uma estrutura digital mais sofisticada e um candidato presidencial que deve ter desempenho superior ao do Novo naquele ano.
  • Segundo, a expansão da rede de candidaturas da Missão para regiões fora de São Paulo é essencial. O partido precisa comprovar capilaridade no Estado e, em seguida, no restante do país — um desafio particularmente difícil para um grupo que ainda não testou sua eficácia fora do eixo sudestino.

Se ambas as condições se concretizarem, a Missão pode repetir e ultrapassar o feito do Novo em 2018. A diferença está na máquina digital nativa da legenda, que já demonstrou eficiência em campanhas de mobilização de rua e online pelo MBL. Essa ferramenta poderia eleger uma bancada significativa, garantindo ao partido uma vitória eleitoral sólida mesmo sem vencer a disputa presidencial.

Bernardo Santoro é cientista político, bacharel pela Uninter (PR), e possui graduação, mestrado e doutorado em Direito pela UERJ. Atua como advogado em Curitiba (PR) e Petrópolis (RJ), e é conselheiro superior do Instituto Liberal.

Com informações da Revista Oeste