Lula e Flávio disputam influência nos Estados a 90 dias da eleição

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Eleições 2026: Lula e Bolsonaro disputam Estados-chave com desafios distintos

A eleição presidencial de 2026, marcada para o dia 4 de outubro, já mobiliza estratégias políticas em escala nacional. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca reeleição, a direita, liderada por Flávio Bolsonaro (PL), enfatiza alianças estaduais e a renovação do Senado para construir um plano de governo. A disputa se intensifica em Estados como Minas Gerais e São Paulo, onde os candidatos enfrentam desafios estratégicos.

O papel dos Estados-chave

Os oito maiores colégios eleitorais do país — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará — representam cerca de 70% do eleitorado nacional. Nesses Estados, Lula e Flávio Bolsonaro enfrentam desafios particulares. No Sudeste, por exemplo, a disputa pelo voto é acirrada, enquanto no Nordeste o apoio ao petista permanece sólido.

“O Sul e o Centro-Oeste têm votado com a direita. O Nordeste continua sendo o bastião de Lula. Já o Sudeste é o fiel da balança”, afirma Carlos Eduardo Borenstein, analista político da Arko Advice. A dinâmica eleitoral no Estado de Minas Gerais, em particular, destaca-se por sua influência histórica nas eleições presidenciais.

Crise interna na direita: Ceará como epicentro

No Ceará, a divisão dentro do PL complica as estratégias da direita. A decisão de apoiar a pré-candidatura do ex-governador Ciro Gomes (PSDB) ao governo estadual gerou um racha entre Michelle Bolsonaro e o grupo liderado por André Fernandes (PL). A ex-primeira-dama criticou publicamente o possível apoio à candidatura de Ciro, considerando que a aliança com um antigo adversário de Jair Bolsonaro contraria os princípios da direita.

“O eleitor bolsonarista ideológico dificilmente abandonará Flávio. O desafio é conquistar os eleitores do centro”, observa Borenstein. Enquanto Michelle defende a candidatura de Priscila Costa (PL) ao Senado, o grupo de Fernandes aposta em Alcides Fernandes (PL). A crise também impacta a base governista no Estado, com Elmano Freitas (PT), governador do Ceará, buscando apoio para sua reeleição.

Minas Gerais: o Estado que define a eleição

Com mais de 16 milhões de eleitores, Minas Gerais é considerado um dos Estados-chave da campanha. Historicamente, quem vence ali tende a conquistar a Presidência da República — uma regra válida em nove das últimas dez eleições presidenciais diretas (1989-2022). O Estado é visto como um “miniatura” do Brasil, com regiões que refletem as dinâmicas econômicas e sociais de diferentes partes do país.

Segundo Borenstein, os resultados eleitorais em Minas Gerais costumam espelhar o cenário nacional. Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro por 50,2% a 49,8% no Estado, enquanto a margem nacional foi de 1,8 ponto percentual a favor do petista. Hoje, Lula e Flávio Bolsonaro buscam formar alianças estratégicas para consolidar apoio na região.

O “plano A” inicial do PT era convencer Rodrigo Pacheco (PSB) a ser candidato ao governo de Minas Gerais, mas o ex-presidente do Senado recusou. Agora, Lula tenta persuadir Marília Campos (PT), ex-prefeita de Contagem, a disputar o Estado, embora ela insista em manter sua pré-candidatura ao Senado.

Na busca por alianças estratégicas em Minas Gerais, Marília tem defendido a formação de uma “frente ampla” que inclua parlamentares de diferentes partidos. Recentemente, ela fortaleceu relações com Gabriel Azevedo, pré-candidato do MDB ao governo estadual e ex-presidente da Câmara de Belo Horizonte que, no passado, foi crítico da base petista. Alexandre Kalil (PDT), ex-prefeito de Belo Horizonte, também se destaca como potencial aliado.

No espectro conservador, o caminho para Flávio Bolsonaro parece complexo. Embora o pré-candidato do PL ao Palácio do Planalto deva apoiar Cleitinho (Republicanos), que lidera as pesquisas de intenção de voto para o governo de Minas, ainda não há confirmação da candidatura do senador. Apesar de sinalizações recentes, Cleitinho prometeu anunciar sua decisão após o encerramento da Copa do Mundo.

Se Cleitinho não se candidatar, os nomes mais prováveis para representar a direita incluem Flávio Roscoe (PL), ex-presidente da Fiemg; Vittorio Medioli (PL), ex-prefeito de Betim; e Luiz Eduardo Falcão (Republicanos), ex-governador de Patos de Minas. No mesmo espectro, Mateus Simões (PSD), governador atual e pré-candidato à reeleição, apoia Romeu Zema (Novo) na disputa presidencial.

“A vantagem do senador Cleitinho no Estado é real, mas a aliança com Flávio ainda não está consolidada. Por outro lado, Lula enfrenta desafios após a saída de Rodrigo Pacheco”, analisa Borenstein. “Esses fatores podem influenciar diretamente o resultado em Minas e, por extensão, na eleição presidencial. São Paulo e Minas Gerais são os Estados com maior peso para definir o pleito nacional”, afirma.

Segundo Borenstein, a associação entre candidatos ao governo e à Presidência “não é automática”. “O eleitor que apoia Cleitinho pode não votar em Flávio. Em 2006 e 2010, por exemplo, governadores de oposição ao presidente eleito obtiveram vitórias. No entanto, uma aliança bem estruturada facilita a campanha. Com a polarização atual, Minas certamente terá impacto nacional.”

O analista ressalta que, embora seja cedo para prever um vencedor no Estado, o histórico eleitoral de Minas não deve ser ignorado. “É uma tendência consolidada ao longo das décadas, não um dado aleatório. Cada eleição é única, mas há possibilidade real de que quem ganhe em Minas também leve a Presidência.”

O papel dos grandes colégios eleitorais

No cenário nacional, São Paulo emerge como o epicentro da disputa. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) busca a reeleição e será principal aliado de Flávio Bolsonaro no Estado enquanto enfrenta desafios jurídicos com o PT. A chapa da direita contará com Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) para o Senado.

No lado oposto, Fernando Haddad (PT) disputará novamente o governo de São Paulo, com Márcio França (PSB) como vice. As candidaturas de Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) ao Senado completam a chapa petista.

Na Bahia, Lula conta com um palanque sólido. O governador Jerônimo Rodrigues (PT), reeleito com apoio de Jaques Wagner e Rui Costa, enfrenta desafios após uma investigação contra Wagner acusado de receber propina do Banco Master. A direita, por sua vez, apoia ACM Neto (União Brasil), que evita alinhar sua campanha diretamente a Flávio Bolsonaro.

“Apesar da força do PT na Bahia, a investigação contra Wagner pode afetar a candidatura de Jerônimo Rodrigues. Isso poderia gerar desgaste ao partido e impactar negativamente a campanha de Lula”, alerta Borenstein.

Em Pernambuco, Lula busca equilibrar relações com João Campos (PSB), aliado histórico, e Raquel Lyra (PSD). A chapa petista contará com João Campos no governo e Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT) ao Senado. A direita, ainda desorganizada, aposta em Mendonça Filho (PL) para o Senado.

No Rio de Janeiro, reduto bolsonarista, a reestruturação da chapa do PL segue em andamento após a saída de Cláudio Castro com o lançamento de Douglas Ruas ao governo. Lula, por sua vez, apoiará Eduardo Paes (PSD) no governo e Benedita da Silva (PT) ao Senado.

No Paraná, Flávio Bolsonaro conta com Sergio Moro (PL) como candidato ao governo e Deltan Dallagnol e Filipe Barros (PL) ao Senado. Lula apostará em Roberto Requião Filho (PDT) para o governo e Gleisi Hoffmann (PT) ao Senado.

No Rio Grande do Sul, os palanques estão definidos: Lula apoiará Juliana Brizola (PDT) com Edegar Pretto (PT) como vice e Paulo Pimenta (PT) ao Senado. A direita terá Luciano Zucco (PL) no governo e Marcel Van Hattem (Novo) e Ubiratan Sanderson (PL) ao Senado.

A Batalha pelo Senado e o Futuro do Governo Federal

O cenário político nacional está em constante redefinição, com a disputa por governos estaduais se transformando em uma arena estratégica para influenciar o poder federal. Enquanto os partidos PT e PL priorizam a conquista de dois terços dos senadores, a Casa Legislativa emerge como um dos principais pilares para definir o ambiente político do próximo governo. Suas funções, que vão desde a aprovação de leis até a análise de indicações para tribunais superiores e eventuais pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ganham relevância no contexto de um Congresso cada vez mais polarizado.

Segundo o analista político Borenstein, a fragmentação partidária tornou o Congresso uma entidade mais independente e complexa. “A era das majorias parlamentares amplas está encerrada. Hoje, qualquer presidente precisa construir alianças constantes para avançar em seus projetos, já que o Orçamento federal é controlado por um número maior de grupos políticos”, destaca. Essa realidade redefine a lógica das negociações e coloca os senadores como atores centrais na formação do governo.

A eleição para o Senado, entretanto, já está em andamento antes do prazo oficial. Enquanto as campanhas presidenciais dominam as manchetes, a construção de bases sólidas nos Estados se transforma em um diferencial estratégico. A experiência recente demonstra que quem consolidar palanques mais fortes no cenário estadual terá vantagem não apenas para disputar a Presidência, mas também para definir as condições de governabilidade do país nas próximas quatro décadas.

Com informações da Revista Oeste