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Neil Rimer e o debate sobre redistribuição de riqueza no mundo da IA
No final de maio, Neil Rimer fez uma afirmação durante uma conversa em Atenas que tem gerado discussões no meio tecnológico. Num novo festival de inovação na cidade, ao comentar sobre a concentração de riqueza no setor de inteligência artificial, ele destacou ter “uma forte conclusão de que existe uma redistribuição”. Rimer explicou que essa mudança ocorrerá de forma voluntária ou involuntária, mas será imediata. Ele espera que seja a primeira opção e ressaltou que os líderes do setor possam desempenhar um papel fundamental nesse processo.
Comentários como esses costumam soar como posicionamento comum em debates políticos. No entanto, vindo de Rimer, cofundador da Index Ventures — uma das maiores empresas de capital de risco do mundo — a declaração ganha outro peso. Afirmar que a redistribuição será significativa, mesmo sem mencionar o papel do Estado, é um posicionamento singular para alguém com tantos recursos acumulados.
O legado de Rimer e suas contribuições
Em 2021, Rimer conseguiu sua atuação direta na área de investimentos. Hoje, passa grande parte do tempo em Atenas, onde sua esposa é originária e seus filhos valorizam os benefícios dos passaportes gregos. Durante uma entrevista, ele chegou com roupas simples — um blazer desgastado e jeans — em contraste com o estilo mais formal de muitos colegas. Mesmo assim, a Index Ventures continua com resultados exclusivos: desde sua fundação, arrecadou cerca de US$ 15 bilhões com investidores externos. Em 2024, saídas como o IPO da Figma e a compra da Wiz pelo Google renderam aproximadamente US$ 9 bilhões ao fundo.
Além disso, Rimer tem se engajado em iniciativas de impacto social. Atualmente, ele ocupa uma vaga no conselho da Endeavor Grécia, que apoia empreendedores em mercados emergentes, e exerceu a presidência do Conselho da Human Rights Watch entre 2019 e 2025. No final de 2021, junto com seu pai e dois irmãos, ele doou US$ 13 milhões à McGill University para reformar um prédio, que hoje leva seu nome, e criar um novo Instituto para Pesquisas Indígenas.
Desafios na filantropia contemporânea
A declaração de Rimer surge em um contexto delicado. Ó Dando Promessainiciativa lançada por Warren Buffett e Bill Gates em 2010 para convencer bilionários a doarem metade de seus patrimônios, está perdendo relevância. Segundo um relatório do New York Times, o número de famílias que aderiram ao compromisso caiu significativamente: 113 em cinco anos, depois 72, 43 e, em 2024, apenas quatro. O artigo ressalta que até Elon Musk, o homem mais rico do mundo, defende a ideia de que seus negócios são uma forma de filantropia.
Esse padrão também é visível nos dados gerais sobre ações no país. Em 2024, os Estados Unidos registraram um recorde de US$ 592,5 bilhões em contribuições, mas o número de doadores caiu por cinco anos consecutivos — uma redução de 4,5% só em 2024. Segundo a Stanford Social Innovation Review, dois terços dos lares norte-americanos doaram em 2000; hoje, cerca da metade faz isso. Dados do Bank of America e da Lilly Family School indicam que mesmo entre famílias mais ricas, a taxa de doação caiu de 90% em 2017 para 81% no ano passado.
Index Ventures e as tendências no setor
Essa realidade também reflete no portfólio da Index Ventures. Entre seus investimentos está a Anthropic, empresa que recentemente foi destacada. Segundo um relatório do Business Insider, muitos dos novos ricos vinculados à Anthropic — muitos deles associados ao movimento de altruísmo eficaz — não estão priorizando a filantropia. Embora a empresa ofereça grandes benefícios para doações de até 25% da participação acionária, apenas alguns dos clientes do planejador financeiro Alex Caswell estão incluindo doação em seus planos. A maioria prefere investir como anjos ou iniciar novos negócios.
Com o aumento da desigualdade, os debates sobre políticas públicas ganham força. Na Califórnia, uma proposta de imposto único de 5% sobre a riqueza dos bilionários será votada este ano. Para se protegerem, figuras como Sergey Brin e Larry Page, fundadores do Google, já migraram para o sul da Flórida.
Enquanto isso, a OpenAI está considerando uma oferta pública em 2027. Parte desse planejamento pode estar ligada à possibilidade de um imposto sobre riqueza, já que a proposta inclui uma avaliação de patrimônios globais no final do ano. Especialistas como o governador Gavin Newsom e economistas alertam sobre os riscos de políticas semelhantes, com base em experiências históricas.
Alternativas controversas
Dentre as opções preferenciais, uma proposta controversa envolve o OpenAI. Segundo relatos, a empresa está discutindo a concessão de uma fatia de 5% de sua participação para o governo federal dos EUA — uma ideia que o CEO Sam Altman defende como forma de compartilhar os benefícios com a população. No entanto, os críticos veem isso como um meio de obter cobertura política em Washington.
Ainda assim, o setor da tecnologia tem um histórico de resistência às políticas que envolvem o Estado. Durante uma entrevista em 2025, o investidor Roelof Botha ironizou ao dizer: “As palavras mais perigosas do mundo são ‘Estou aqui para ajudar — sou do governo’.”
A escala da riqueza e os desafios do futuro
Enquanto o debate sobre a redistribuição avança, dados recentes revelam a magnitude da concentração de riqueza no setor. Elon Musk, por exemplo, tem um patrimônio superior a US$ 1 trilhão, após um IPO da SpaceX. Segundo a Forbes, 45 novos bilionários ligados à IA foram incluídos na lista de 2026, com um patrimônio coletivo de US$ 2,9 trilhões. Esses números ainda não consideram as saídas da Anthropic e OpenAI, que, ao completarem seus IPOs, podem gerar patrimônios suficientes para comprar quase um terço das casas no mercado imobiliário de São Francisco.
Embora o cenário pareça incomum, economistas como Gabriel Zucman ressaltam que a desigualdade atual ainda está abaixo dos níveis do período do período Era Douradaquando os quatro maiores patrimônios representavam 4% do PIB dos EUA. Hoje, apenas 19 famílias detêm 14% da riqueza nacional — um aumento significativo em relação ao passado.
Redistribuição de riqueza: entre filantropia e pressão política
Num momento em que a concentração de riqueza no Brasil atinge níveis preocupantes, o debate sobre como lidar com essa disparidade ganha novos contornos. Para especialistas, histórias do passado oferecem lições relevantes, especialmente quando se considera o equilíbrio entre ações voluntárias e intervenções estatais.
Na década de 1889, durante o primeiro período de concentração de riqueza no mundo ocidental, Andrew Carnegie propôs uma abordagem que mudaria para sempre a visão sobre a responsabilidade dos ricos. Em seu ensaio “O Evangelho da Riqueza”, ele argumentava que os milionários deveriam encarar seus bens como uma “confiança” destinada ao bem público, defendendo que morrer rico era uma vergonha. Essa ideia se tornou a base do que hoje conhecemos como filantropia moderna e desenvolveu iniciativas como o Giving Pledge, um compromisso de grandes fortunas com a redistribuição.
Mas, mesmo com esse modelo, a pressão social não se limitava ao voluntarismo. Nos anos 1930, o senador da Louisiana Huey Long ganhou notoriedade com sua proposta “Share Our Wealth”, que impunha impostos elevados sobre os ricos para garantir renda mínima a todos. Diante dessa ameaça, o presidente Franklin Roosevelt introduziu uma política fiscal radical, elevando a alíquota de imposto de renda para 79% em alguns casos. Embora não tenha atendido integralmente as demandas de Long, essa medida se tornou um marco na história dos Estados Unidos, mostrando como o Estado pode agir quando uma filantropia voluntária falha.
A visão de Rimer: de herói à preocupação
Para Rimer, que passou a vida no setor tecnológico, essa dualidade entre ação espontânea e intervenção estatal é um tema recorrente. Sua trajetória começou na Universidade de Stanford em 1984, quando o primeiro Macintosh foi vendido com descontos para estudantes. Na época, Steve Jobs e outros fundadores da Apple eram vistos como “heróis” por construirem algo que, segundo Rimer, “realmente beneficiava a humanidade”.
Hoje, porém, ele observa uma mudança nos discursos sobre grandes empresas tecnológicas. Seus filhos, por exemplo, comentam sobre algumas corporações com o mesmo desdém que as gerações anteriores usavam ao falar de indústrias como a defesa ou o tabaco. Essa percepção reflete uma crítica crescente à ética das empresas tecnológicas, especialmente em relação aos impactos sociais e ambientais.
Apesar de ser investidor em startups como a Anthropic — cujo crescimento ele considera parte da “fortuna que um dia precisará ser compartilhado” — Rimer defende uma abordagem voluntária. Ele prefere que os beneficiários optem por doar, em vez de terem recursos retirados por meio de políticas fiscais. Para ele, há duas opções: “uma fácil e outra difícil”, e ele aposta na primeira antes que a história force a segunda.
Com informações do Techcrunch



