Redefinindo o modelo da casa fundadora de Londres como alternativa à agitação do Vale do Silício


Um novo modelo de vida para empreendedores: o Lift House em Londres

No leste de Londres, seis jovens profissionais estão testando uma abordagem alternativa à tradicional “hackers house” de São Francisco. Para Rowan Aldean, 26, o foco não é pressa do Demo Day, mas sim uma “melhoria holística da vida”. O conceito foi aplicado no que chama de Lift House, um espaço que combina trabalho e convivência em um edifício de seis andares com vista para a água.

A proposta surge como uma resposta à cultura intensa do Vale do Silício, onde eventos exagerados e ritmos extremamente acelerados são normais. No entanto, os residentes do Lift House procuram equilíbrio, integrando práticas de bem-estar ao desenvolvimento de startups. A iniciativa é uma das poucas em Londres que mistura co-living com ambiente de inovação tecnológica.

O diferencial: foco em sustentabilidade e conexão

A ideia do Lift House está ligada ao conceito de “Londonmaxxing”, um movimento que busca otimizar tudo o que a cena tech da capital oferece. Enquanto São Francisco vive sob a sombra de uma cultura de “996” (trabalho 24/7), Londres parece apostar em um modelo mais equilibrado, com destaque para empresas como DeepMind, que conquistam prêmios Nobel sem ostentação.

Dados do Dealroom mostram o crescimento acelerado do setor: em 2026, startups de IA no Reino Unido arrecadaram US$ 12 bilhões, sendo seis delas com mais de US$ 500 milhões. Empresas como ElevenLabs e Superinteligência destacam-se, muitas com vínculos a ex-funcionários da DeepMind.

LR: Luke, Zahraa, Rowan, Varun, David, Presence e Wan. Varun não mora no Lift House.Crédito da imagem:TechCrunch

Rituais de equilíbrio e produtividade

A rotina no Lift House varia conforme o perfil dos moradores, mas todos se reúnem em busca de um estilo de vida mais saudável. Alguns permanecem por um mês; outros planejam ficar até seis meses. As regras incluem a divisão do trabalho doméstico e das compras individuais, embora sejam comuns refeições coletivas.

No domingo, o grupo pratica journaling — uma técnica introduzida por David Amor, 28 anos, especialista em coaching cerebral. A atividade ajuda a monitorar hábitos como alimentação equilibrada, exercícios e conexão com a natureza. Luke, 27 anos, que fundou uma startup de marketing AI, destaca mudanças na rotina: “Começo a almoçar regularmente, algo simples, mas fundamental.”

Todas as segundas-feiras à noite, os residentes participam de partidas de vôlei em um campeonato local. Em outras noites, Wan Ying L, 25, toca piano no salão. A convivência também inclui jogos como Catan e visitas a exposições artísticas.

Quero tocar pianoCrédito da imagem:TechCrunch

Presence Plumb, 25, estrategista tecnológico, organiza jantares no telhado, com pratos que refletem as origens multiculturais dos moradores. “Aqui, o foco é equilíbrio e compensação”, ressalta. A diferença cultural entre Londres e São Francisco também aparece: ao invés de café filtrado, os residentes preferem chá britânico.

Desafios culturais e oportunidades

O ambiente da capital britânica traz desafios únicos. Fundadores enfrentam pressão por causa de uma aversão cultural ao risco e uma “síndrome da papoula alta” — quando a mídia exalta empreendedores, mas depois a crítica descobriu o sucesso. Aldean confirma isso: “Em Londres, há menos ostentação e mais humildade.”

No entanto, Luke destaca como vantagens da cidade: rede sólida, capital inicial acessível e opções para uma vida fora do mundo tech. Para Amor, a diversidade cultural é outro ponto forte: “Há sempre algo legal para fazer, seja um clube de fundadores ou um evento de jazz.”

O Lift House representa uma aposta no futuro da inovação britânica — uma combinação de propósito e produtividade, sem perder a essência do que torna Londres única.

Ecossistema tecnológico do Reino Unido: vantagens fiscais e desafios de expansão

O modelo de financiamento baseado em benefícios fiscais do Reino Unido, como o SEIS/EIS, tem se mostrado uma alternativa estratégica para startups que buscam evitar investimentos de capital de risco. Luke e Varun destacam que essa política atrai investidores anjos, oferecendo quebra tributária semelhante ao de contribuições para a renda. “A taxa de imposto é quase a mesma”, explica Lucas, salientando o apelo de início de operações em Londres.

Luke e Varun escrevem termos de marketing no quadro branco, representando as fases do funil (TOFU, MOFU e BOFU).Crédito da imagem:TechCrunch

Aldean comenta que o ambiente de Londres difere do Vale do Silício em aspectos culturais. Durante sua estadia em uma casa hacker na Califórnia, ele compartilhou uma dinâmica mais fechada, onde a colaboração era limitada e as conversas informais eram raras. “Ter muita pressão para manter o foco no produto”, diz, contrastando com a cultura britânica, que tende a evitar fofocas.

“Não há essa coisa de ‘você ouviu sobre o CTO que fez X'”, afirma Aldean. “Você fica sempre preocupado com possíveis histórias negativas sendo espalhadas”, explica, destacando como o ambiente britânico prioriza a confiança coletiva.

Outra diferença apontada pelos fundadores é o foco no mercado corporativo. Varun e Luke ressaltam que startups em Londres tendem a vender para grandes empresas, ao contrário do Vale do Silício, onde as negociações entre startups são mais comuns. “Aqui, fechar um cliente é difícil”, diz Varun, “mas quando se consegue, o relacionamento tende a ser mais duradouro.”

Expansão para os Estados Unidos

Apesar das vantagens locais, muitas startups britânicas buscam oportunidades nos EUA. A combinação de acesso a talentos acadêmicos de renome, como da Universidade de Oxford e Cambridge, e o fuso horário favorável ao trabalho com mercados globais é um atrativo. Por outro lado, os Estados Unidos oferecem acesso a investidores que pretendem financiar desde estágios iniciais até fases de crescimento.

David, fundador de uma startup de coaching cerebral, dinâmica e de jornalismo no cotidiano da comunidade.Crédito da imagem:TechCrunch

“É como uma linha de montagem”, compara Varun. “Você começa aqui e depois expande tudo, ou vice-versa.” Investidores norte-americanos também estão participando para atrair talentos britânicos. Um exemplo citado por Luke envolve um investidor que mudou de fundador para os EUA antes de financiar sua empresa.

Apesar da pressão, o casal não descartou a possibilidade de se estabelecer nos EUA para ficar mais próximo dos clientes. “Já começamos a expandir”, diz Lucas, revelando que a decisão depende do equilíbrio entre oportunidades e vida pessoal.

Essa tensão entre permanência no Reino Unido e migrar para os Estados Unidos reflete desafios maiores no ecossistema tecnológico europeu. Plumb, especialista em apoio ao setor, observa que muitos fundadores expressam otimismo sobre o país até terem a chance de sair.

Enquanto o contrato da Lift House ainda tem um ano para expirar, há uma intenção de manter o espaço ativo. Londres, apesar de ter iniciativas como Solana Hacker House e The Residency, ainda é considerada uma região com poucos espaços coletivos sustentáveis.

Em 2024, um experimento contrário ao Lift House chamado “The London Founder House” pretendia atrair apenas empreendedores que já haviam levantado pelo menos meio milhão de dólares. Apesar de ter encerrado as operações no ano passado, o conceito influenciou a cultura local.

Para ser residente do Lift House, é necessário demonstrar hobbies fora da área profissional e interesse por atividades físicas. Essa abordagem se alinha com o movimento “Londonmaxxing”, que promete equilibrar vida pessoal e produtividade. “A cultura aqui é construir algo duradouro”, ressalta Aldean, “não correr atrás de um brilho passageiro.”

Com informações do Techcrunch